Por uma nova e diversificada literatura brasileira

Antologista e editor de “Geração 2010: o sertão é o mundo” veem uma mudança significativa no cenário literário da última década, com intelectuais negros, indígenas e periféricos emergindo
O editor Marcelo Nocelli e o escritor e antologista Fred Di Giacomo
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10/07/2021

Um novo recorte da literatura brasileira contemporânea aparece na antologia Geração 2010: o sertão é o mundo, que a editora Reformatório publica ainda em julho. São 25 autores escolhidos pelo escritor e pesquisador Fred Di Giacomo, em sua maioria “intelectuais negros, indígenas e periféricos”, que não se identificam com “a literatura nórdica” que se fazia no Brasil até recentemente, segundo o antologista.

São autores como Micheliny Verunschk, Maílson Furtado e Itamar Vieira Junior, que emergiram no cenário literário nacional vindos de lugares fora do eixo Sul-Sudeste. Além de serem publicados por grandes editoras, esses autores ganharam algumas das principais premiações literárias dos últimos anos. O livro traz texto de orelha de Marçal Aquino, escritor acostumado a figurar em antologias.

Esse “ponto de virada” da literatura brasileira, aconteceu por razões sociais, políticas e tecnológicas, conforme explicam nesta entrevista Di Giacomo e Marcelo Nocelli, editor da obra. Além disso, o surgimento de um grande número de pequenas editoras no país também impulsionou o aparecimento de novas vozes no cenário literário.

“Houve uma mudança social e política no Brasil entre 2003 e 2016, que veio da pressão da sociedade e dos movimentos sociais e identitários organizados e gerou mudanças como estabilidade econômica, criação de universidades nos interiores, políticas de cotas e de inclusão social”, diz Di Giacomo, que acredita que hoje a literatura brasileira vive seu melhor momento dos últimos 50 anos.

Antologias de geração costumam ser polêmicas. Qual a motivação para reunir esses autores neste livro?
Fred Di Giacomo: Há uma mudança acontecendo no Brasil: política, econômica e racial, que incomoda nossa elite branca, tacanha e mesquinha. Essa mudança — sincronizada com os estudos decoloniais, o pós-humano, o perspectivismo ameríndio, na academia, e as lutas identitárias, nas ruas — se reflete em nossa literatura, em nossas artes, criando um momento muito interessante para se estar vivo. Veja, quando eu era adolescente, em um bairro da periferia no interior do país, eu não me identificava com a literatura “contemporânea” que caía nas minhas mãos. Meus vizinhos bóias-frias e carroceiros tinham mais a ver com o que eu lia em Graciliano Ramos ou Jorge Amado do que com o que queriam vender como o “Brasil de 1990/2000”. Quando migrei para a capital paulista, em 2006, “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”, não conhecia ninguém da cena literária paulistana, parecia tudo um clube muito fechado e elitista de velhos amigos dos colégios construtivistas da zona oeste paulistana. Se para alguns, os banqueiros eram os que lhes financiavam as aventuras artísticas, para mim eram os que haviam tomado a casa dos meus pais. No entanto, já na década de 2010, as notícias das premiações de Micheliny Verunschk, Maílson Furtado e Itamar Vieira Junior, me fizeram ter a impressão de que algo mudava em nossa literatura. De que essa solidão estética podia estar chegando ao fim. Fui atrás de suas obras e me identifiquei muito com a temática e a linguagem. O Brasil que eles retratavam era o da minha infância, independentemente de serem autores do Nordeste e eu ter me criado ali onde o Sudeste abraça o Centro-Oeste — com todo agronegócio, música sertaneja e cultura caipira que isso inclui. Pouco depois, tive o privilégio de participar da Printemps Littéraire, na Sorbonne, e da Feira do Livro de Frankfurt, e fiz contato com outros autores que pareciam rezar a mesma cartilha: Raimundo Neto, Krishna Monteiro, Djamila Ribeiro, Waleska Barbosa, entre outros. Escrevi alguns artigos para a revista Cult sobre essas impressões, que me levaram a me aprofundar no tema. Isto acabou virando um projeto de doutorado e uma coluna semanal no portal UOL. Convencido de que algo, de fato, acontecia em nossa literatura, propus a antologia pro Marcelo Nocelli que gostou da ideia. Não tive a intenção de demarcar um ranking, um cânone, uma seleção de “melhores”, mas de fazer uma fotografia de um momento histórico importante.

Marcelo Nocelli: Quando o Fred propôs a ideia, lá em 2018, quando começamos a convidar os autores e organizar os textos, eu gostei muito. Sempre fui leitor de antologias, porque, para mim, é uma forma de conhecer autores, vários autores num mesmo livro, e dali buscar os que mais me agradam para mergulhar na obra. Tratando-se de literatura brasileira contemporânea então, melhor ainda. Quantos leitores brasileiros comprariam e leriam um livro inteiro de cada um desses autores? Até por isso, sugeri ao Fred que além dos “novos clássicos” de hoje, ou melhor, autores que realmente foram consagrados nesta década, como Maria Valéria Rezende, Itamar Vieira Jr e Ailton Krenak, garimpássemos também jovens talentos que germinam nos interiores do Brasil, como Maya Falks, Victor Guilherme Feitosa, Monique Malcher, entre outros.

A antologia parte do princípio de que houve um “ponto de virada” na literatura brasileira, com autores que em outros tempos poderiam ser considerados “periféricos” ganhando destaque. Isso aconteceu a partir de 2010?
Fred Di Giacomo: Olha eu diria que “pontos de virada” são mais polêmicos que antologias (risos). Mas como diz nosso mestre Guimarães Rosa: “o que a vida quer da gente é coragem”, então bora cravar essa virada. Houve uma mudança social e política no Brasil entre 2003 e 2016, que veio da pressão da sociedade e dos movimentos sociais e identitários organizados e gerou mudanças como estabilidade econômica, criação de universidades nos interiores, políticas de cotas e de inclusão social. Isso germinou, ou nos apresentou, uma classe de intelectuais negros, indígenas e periféricos, mas um público letrado que não se identificava com a literatura nórdica que se fazia no Brasil até então. A produção de pessoas do interior, das matas e dos sertões sempre existiu. No entanto, o aguçamento do neoliberalismo, com a ditadura militar, a partir da década de 70, provocou um retrocesso cultural em nosso país, uma miopia que nos fez esquecer quão múltiplos éramos. Mas o “campo literário” passou a reconhecer esse Brasil esquecido depois de todas essas mudanças. É difícil para a branquitude sudestina largar o espelho e parar de se admirar. Quando o Jabuti premiou o Maílson e, na sequência, Itamar, Jarid Arraes, Cida Pedrosa e grande elenco passaram a encabeçar as principais premiações, algo mudou em nossa literatura. Grandes editoras como a Todavia e a Companhia das Letras estão publicando agora muitos autores que as “pequenas editoras” lançaram na última década. É impossível pensar essa geração sem pensar editoras como a CEPE, Patuá, Reformatório, Malê, Mondrongo, Penalux, Moinhos, Caos e Letras, etc.Isso não quer dizer que não houvesse exceções nas décadas anteriores, vide  a maravilha de Um defeito de cor, da Ana Maria Gonçalves, mineira do interior que publicou seu romance na década de 2000, mas que só passou a ser devidamente considerado uma obra-prima na última década. Ana Maria é uma predecessora espiritual desta geração. A luta indígena é outro ponto de virada. Quase não se falava de autores indígenas no começo da década de 2010 e os fenômenos A queda do céu e Ailton Krenak provaram a demanda reprimida que havia por essas vozes.

Marcelo Nocelli: Eu diria que além das mudanças sociais e econômicas, a internet ajudou muito neste “ponto de virada”. No começo dos anos 2000 pouca gente tinha acesso à internet, sobretudo para produzir e publicar conteúdo. Surgiram então os blogs, onde muitos escritores publicavam seus textos, sem a necessidade de buscar uma editora pra isso. Mas os leitores ainda eram poucos e você precisava ir atrás desses conteúdos digitais. Em 2004 surgiram as redes sociais em larga escala, o Orkut, e foram surgindo outras. Dali em diante esses conteúdos chegavam até nós, sem que tivéssemos que procurar. Os famosos algoritmos, usados até hoje para o bem e para o mal, tratavam de nos apresentar “coisas” de nosso interesse. Mas de 2010 pra cá, todo mundo passou a usar a internet, até as tribos indígenas por exemplo, se conectaram às redes. Na internet, ninguém mais está “à margem”. Isso possibilitou que autores que ainda nem tinham livros publicados, pudessem ser lidos e se tornassem mais conhecidos do que muita gente que já tinha três ou quatro livros lançados. Na internet não há divisão de centro e periferia, todo mundo tá ali, junto e misturado e isso representou uma virada importante, junto com o surgimento das pequenas editoras, que proliferaram de 2010 pra cá, e lançaram ao mundo os nomes de boa parte dos autores que estão nesta antologia, por exemplo.

Por que esses autores começaram a ser percebidos?
Fred Di Giacomo
: Essa pergunta vale o doutorado (risos). Houve uma mudança política no Brasil, né? Sempre existiram autoras e autores como Conceição Evaristo, mas que não furavam a bolha da nossa elite intelectual. Entre as décadas de 80 e 2000, parecia que só havia literatura nos grandes centros: de um lado a autoficção dos ricos, do outro a literatura marginal das periferias e favelas. Ambas literaturas com gente muito boa, mas um recorte pequeno de um país gigante.
A partir de 2003, o Brasil passou por muitas mudanças, inclusive de autoestima e autopercepção. Questões identitárias, questões dos indígenas, questões dos quilombolas, questões dos interiores passaram a ser discutidas. A luz chegou para lugares onde não havia. Acho que as editoras e o “campo literário” até demoraram para acompanhar essas mudanças todas. A geração de pequenas editoras fez muito por essa percepção. Em entrevista para minha coluna, Itamar Viera Junior defende que essa mudança veio mais da pressão do público. Diz ele: “Os últimos governos vieram num processo muito importante de inclusão da sociedade. Abriram as políticas de cotas, permitiram o ingresso de muitas pessoas à universidade. Pessoas oriundas de escolas públicas, pessoas dos segmentos sociais mais vulneráveis da nossa sociedade como os indígenas, os quilombolas e as populações negras em geral. Tudo isso reverbera não só nos escritores, mas, também, nos leitores que vão buscar referências que lhes digam respeito. Isso é muito forte.”

Marcelo Nocelli: Mais uma vez, acho importante citar essa possibilidade que a internet nos deu do contato direto entre autor e leitor. Antes um escritor lançava um livro e fora do seu círculo de convívio, ele não sabia quem estava lendo sua obra, hoje ele sabe, vê comentários públicos sobre seus livros, recebe mensagens dos leitores. A escritora paulistana Aline Bei, por exemplo, vendeu mais de 10 mil exemplares de forma direta, pelas redes sociais e no contato com seus leitores em eventos literários. O número de feiras e festas literárias aumentou consideravelmente nos últimos anos, os presenciais e os virtuais, que alcançam ainda um número maior de pessoas porque ficam disponíveis para quem quiser ver, quando e onde quiser. Há também as premiações literárias, que sempre dão algum destaque aos autores, não só aos que conquistam tais prêmios, mas também aos que figuram nas listas de finalistas e semifinalistas. Além disso, hoje, muitos autores brasileiros contemporâneos estão sendo estudados nas universidades e escolas, o que não acontecia antes. Há clubes de leitura e de assinaturas voltados exclusivamente para a literatura brasileira contemporânea, tudo isso, somado às mudanças que o Fred citou, tem feito com que estes autores sejam percebidos.

O título do livro faz referência ao Nordeste brasileiro. Mas há escritores do Sul e Sudeste no livro. Como foi feita a escolha dos autores?
Fred Di Giacomo: Na verdade, o título não faz referência ao Nordeste brasileiro. A frase é de Guimarães Rosa, mineiro de
Cordisburgo, que escrevia sobre o sertão das Gerais. Quando meus avós mudaram para Penápolis (noroeste paulista, quase Mato Grosso do Sul), fugindo de dívidas contraídas em Jaú, minha avó chorava todo dia dizendo que aquilo era “a boca de sertão”. Nas pesquisas para o meu primeiro romance, Desamparo, todo o interior de São Paulo que os brancos ainda não haviam invadido era chamado de sertão. E é assim que está nos dicionários: “1. região agreste, afastada dos núcleos urbanos e das terras cultivadas. 2. terreno coberto de mato, afastado do litoral. 3. a terra e a povoação do interior; o interior do país.” Já, outra definição de Guimarães, é: “Sertão é dentro da gente”. Sendo assim, o recorte foi de autores que despontaram na década de 2010 e que não vinham dos grandes centros urbanos que dominavam a literatura brasileira até então, as capitais (São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte). Também prezamos, é claro, pela qualidade literária, mas sem ambição de uma seleção dos “melhores” ou do “cânone”. É um recorte de tempo e espaço de bons escritores vivos que têm algumas semelhanças políticas e estéticas.

O que “une” esses autores? Há pontos de convergência — estética e tematicamente — entre eles?
Fred Di Giacomo
: Olha, essa é uma pergunta que pretendo responder decentemente no final do meu doutorado em literatura, onde analiso parte desses autores (risos). O principal recorte, como respondi anteriormente, é o “tempo” e o “lugar”. É difícil colocar 25 autores e autoras no mesmo balaio estético, mas existe, sim, uma proximidade em grande parte da obra deles. Primeiramente: não são autores que focam na autoficção urbana, o que já os diferencia frontalmente “da geração anterior”. Em uma parte considerável desses autores, suas histórias se passam no interior do país, são protagonizadas por pessoas que não pertencem à elite sudestina — com uma diferença de lugar de fala em relação aos regionalistas de 30: aqui a maior parte dos autores também vem da classe trabalhadora ou de lugares não-privilegiados. Dos autores que tenho estudado no doutorado hoje (Dorrico, Itamar, Verunschk, Neto, Monteiro, Rezende, Ribeiro) também posso dizer que se destaca uma dimensão épica em sua prosa, uso de linguagem poética, presença da religiosidade “não-cristã”, elementos fantásticos e jogos com o perspectivismo — muita dessa literatura é protagonizada por animais e espíritos, vide os últimos terços de O som do rugido da onça e Torto arado.

Marcelo Nocelli: Além do tempo, e do espaço, creio que há sim um equilíbrio entre os textos, mas que expressam com nitidez as características de cada autor quanto à sua maneira de escrever e de enxergar o mundo. É importante observar também que a literatura brasileira evoluiu muito nesta última década, tanto em temáticas quanto em linguagem e estruturas. Me parece que nestes últimos anos a literatura brasileira rompeu barreiras importantes, se renovou, se ampliou e, principalmente, se diversificou, graças a uma mistura e renovação de “atores”. E tudo isso está presente neste livro, de formas diferentes, por talentos diferentes, em um momento social que acaba por integrar a estética.

Alguns críticos acham que a qualidade literária tem sido preterida por questões “politicamente corretas”, como gênero e raça. Como veem esse debate?
Fred Di Giacomo
: Eu acredito, sim, que a qualidade literária foi preterida por muitas décadas pela questão de território e raça: só brancos ricos “amigos dos amigos” publicavam no Brasil e isso empobreceu muito nossa literatura. Muitos dos donos de editoras, festivais, bancos, jornais e revistas literárias vêm inclusive das mesmas famílias. Isso lá é critério de qualidade literária Vamos jogar com as regras da crítica que se considera “cientítica”: se você for se apegar ao cânone nacional, ao que a academia defende, quem são os “grandes nomes”? Machado, Lima Barreto, os regionalistas de 30, Raduan… Itamar Vieira Junior tem muito mais a ver com essa literatura (atualizada esteticamente para o século 21, claro) do que o que se publicou no Brasil nos últimos anos por aqui, com autores pouco vendidos, pouco traduzidos no exterior e que despertaram pouco interesse fora de nosso círculo íntimo. Sejamos honestos, estamos na melhor fase da nossa literatura nos últimos 50 anos e quem não concorda não lê os vivos. É claro que, como em todas as décadas, muita coisa sem qualidade está sendo publicada, mas tem muita coisa que “vai ficar”. Agora, acho muito importante lembrar que “raça” e “território” só viram marcações quando se referem à raça negra e à indígena ou às periferias, aldeias e sertões. Toda literatura é regional. As antologias “não politicamente corretas”, em geral, têm recorte de raça e território: a raça branca e a zona sul do Rio e a zona oeste de São Paulo. Por que Jarid Arraes é regional e Julie Dorrico é étnica, mas o autor branco e rico que domina o cenário literário nas últimas décadas não o é? Sou a favor da meritocracia quando é aplicada para nós, brancos. É preciso acabar com as panelinhas no combalido cenário cultural nacional!

Marcelo Nocelli: Talvez isso possa mesmo ter ocorrido no começo das mudanças políticas e sociais que o Fred citou aqui mais de uma vez. Nessa tentativa de “revisionismo histórico” do nosso país, com a política de cotas e a inclusão da sociedade, tão necessárias na busca por um equilíbrio diverso. Mas como tudo na vida, e em todos os campos, o que tem força e qualidade se destaca e ocupa seu lugar, fica. Como disse a professora Regina Dalcastagnè: “Nós não separamos o joio do trigo: nós determinamos o que é joio e o que é trigo”. E cada leitor pode e deve fazer isso, assim como os críticos. Porém, hoje, como disse o Fred na apresentação do livro, “seria tecnicamente impossível selecionar 25 bons autores para representar essa geração 2010 sem incluir na lista um grande número de mulheres, negros, indígenas e autores LGBTQIA+”, e justamente pela qualidade de seus escritos, e não por qualquer outra razão politicamente correta.

Luiz Rebinski

É jornalista e escritor. Autor do romance Um pouco mais ao sul.

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