No céu azul alto, muito distante, a pequena nuvem solitária ganhou forma de algodão-doce. Talvez fosse a fome. Voltou no tempo e, feliz, na cidadezinha do interior, escondeu-se atrás da guloseima. Enorme, branca, a haste de madeira fina perdida entre seus dedos de criança. O carrossel girando sonhos, cavalinhos subindo e descendo, parque de diversões. Houve um tempo em que sabia rir.
Um vento gelado espetou-lhe as orelhas, desceu pelo pescoço até o peito, arrepiou-lhe o corpo encolhido. Outono, maio, a rua deserta no final da tarde parecia vazia demais. Ou era o estômago roncando? Ergueu a lapela do paletó puído, tentou enfiar o queixo sob a gola da camiseta; o bafo quente da própria respiração deu-lhe algum conforto. Que frio! A noite seria pior. Quem disse que o inferno é quente?
Quando o cheiro de pizza atravessou a calçada, apalpou os bolsos vazios. Talvez mais tarde conseguisse alguma sobra. Apesar da carestia. Margherita. E ânimo para adiantar o pedido, deixar acertado com o porteiro? Simpático até, o cearense. Engoliu em seco. Ar sem gosto.
Começou a tremer. Batendo os dentes, viu de repente o pesadelo do irmão. Embora miseravelmente triste, sorriu. A caveira dançando, abrindo e fechando a boca, o ruído estridente dos maxilares se chocando. Calma, Zé, fantasma não existe! Não naquele tempo. Apenas mais tarde eles o assombrariam. Tentou controlar o sacudir involuntário. Mas o frio era tanto… Ainda não tinha reparado na dor daquele balanço das carnes. Poucas, magras, feridas. E tremeu tudo o que podia tremer. Tanto assim que se desapercebeu do sacolejar, acostumou-se.
A sonolência chegou meio fora de hora. Junto com a lua. Não a dos apaixonados. Aquela em que recebeu o primeiro beijo na boca, na pracinha. Margarida, namorada. Algodão-doce, carrossel, Margarida. O pensamento insistia em carregar seu coração para trás. Encolhido, resolveu deitar-se. Quase se sentiu bem. Torpor, um cansaço tão grande… Tentou cantar, mas percebeu a língua enrolando, as palavras tropeçando, escorregando na saliva. Apalpou do lado e encontrou a garrafa. Puxou a rolha e deu um gole. O fogo desceu, aquecendo as entranhas. Se tivesse um cobertor, certamente o poria de lado, calor bom. Acomodou-se melhor e pareceu-lhe estar em Riacho Velho. Uma charrete passou. Era o Edvaldo e seu amigo Tordilho. Certamente voltavam para a fazenda. Dona Ermelinda, professora, escurecendo a calçada. Diacho de velha ruim! Por detrás dela, a parede caiada do cemitério pichada: Aqui vivem os mortos! Margarida na janela. Saudade.
Aos poucos, foi amolecendo, quieto, respirando pouco, lentamente, quase nada. Ainda se lembrou dos seis graus anunciados. Será? Tão frio… Devia ser menos. Cidade grande, enorme, monstra. A parede dura ofendeu-lhe a nuca. Mas não mudou de posição. Fechou os olhos assim, molambo. Pano velho e sujo. Amolengado. E esqueceu-se de viver.
O padre então chorou. Pobrezinhos dos viventes da rua! Com os olhos rasos, olhou para cima e viu a mesma lua. Enorme. A lua dos fodidos.