Alguns livros conquistam muita gente por conta da magia de despertar afetos. Fico atenta aos comentários nas redes sociais e há sempre alguém citando o Léxico familiar, da Natalia Ginzburg, porque as famílias e seus glossários singulares estão por todo canto. Coisa parecida acontece com Os sorrentinos, de Virginia Higa, que conta a história de uma família italiana emigrada para o interior da Argentina e nos deixa encantadas com uma mistura de afeto, comida (massa!) e palavras. É claro que ambas escrevem bem também. Um livro mal escrito pode se tornar indigesto.
No convívio familiar, a grande maioria das pessoas acumulará um acervo de palavras e expressões que talvez se torne gatilho para muitos sentimentos e sensações. E estou sempre pensando nisso quando me lembro, por exemplo, da minha avó paterna, que reiterava o uso de palavras que eu só ouvia de sua boca. Pelejando é uma delas. Era dessas pessoas baixinhas, sempre de vestido midi floridinho, cabelos pintados, que respondia ao cumprimento com um cansado (meio falso) pelejando. Não sei se ela sabia que pelejar guarda muito de lutar, e a vida lhe parecia mesmo uma peleja, embora ela fosse vivaz e festeira como poucos seres humanos na face deste planeta.
Minha avó também dizia umas frases conselheiras, e delas guardei algumas que me intrigavam porque vinham assim como enigmas que eu deveria desvendar. Mais de uma vez, a vó disse que um marido precisa amar mais a esposa do que ela a ele. A lógica era que as chances de um homem não amar sua esposa são muito maiores; e mais: eles já são ruins quando gostam… Imagine se não? E saía com seu pano de prato e seus chinelinhos pelo corredor. Também disse que mulher que estuda demais fica meio lelé e que o casamento só é bom para o homem. Isso sem ser feminista, nem estudada, nem revolucionária. Dizia isso lá com seus botões — e com os meus — e expunha as contradições a que todas estamos sujeitas. Alugava meus pensamentos a ponto de eu escrever esta crônica, hoje, depois de uma vida. E me fazia pensar “mas o que ela quer dizer com isso?” pelo resto dos meus dias.
As frases meio oraculares de minha avó diziam respeito às suas experiências e, provavelmente, também a um repertório de histórias e palavras que ela ouvira de suas ancestrais e que seriam repetidas sempre. Meu avô, com quem ela ficou casada por longas décadas, estava ali embutido naquelas frases, meio ocluso, mas não isolado. Estavam com ele quase todos os homens do nosso tempo, esses que poderiam dar sequência aos comportamentos sobre os quais minha avó queria, mais ou menos, me alertar. Ou apenas me fazer me resignar, isso talvez.
Ocorre que minha avó viveu um pouco mais do que meu avô. E esteve então à beira do caixão dele, ela também já muito debilitada. E vi quando ela disse, com a voz que podia e traqueostomizada, que aquele que ali jazia era o homem de sua vida e que faria tudo de novo. Fiquei espantada para sempre. Não é possível. É? Ou esse é o efeito apaziguador de quando a morte se avizinha?
Minha avó materna também tinha seu léxico, no entanto, minhas memórias sobre ela dizem respeito aos livros de capa dura. Posso ouvir sua voz chamando Alberto! e sendo prontamente atendida. Peleja não era uma palavra que eu ouvia de sua boca. Ao chegar à sua casa, vizinha de muro da de minha avó paterna, eu dava jeito de visitar uma sala de porta sempre fechada, sala de visitas quase sempre vazia, onde ficavam uma cristaleira, um piano, sofás, poltronas e uma mesa de centro. Tudo protegido de crianças. E por isso mesmo eu queria entrar lá, abrir o piano, tirar o feltro verde de cima das teclas, tocar uma ou duas notas, olhar os cristais, puxar o banquinho e contemplar, por longos minutos meio furtivos, a foto em cima do instrumento. Naquela imagem, minha avó posava lindíssima, sozinha, numa cadeira, como uma artista de cinema. Eu nunca vira mulher tão linda. E era minha avó em preto e branco.
O léxico naquela casa vinha do meu avô, técnico têxtil, de quem guardei nomes de tecidos, a imagem das roupas de alfaiataria, o material do meu tradicional uniforme de escola pública estadual — isso é um tergal, e os nomes de tecidos nunca mais foram insensíveis para mim. São irresistíveis, até hoje, assim como suas texturas, assim como nomes de pedras e gemas, que aprendi com minha mãe, esta é a ametista, assim como as tramas que aprendi a fazer com palavras e suas preciosidades. Tramas, textos, a boa e amorosa peleja.