Um encontro elementar

Uma visita ao endereço de Sherlock Holmes vira encontro improvável com Arthur Conan Doyle e rende ironias sobre fama, legado e literatura
Torero, Conan Doyle e Rita. Imagem gerada por IA
10/05/2026

Eu e Rita estávamos no primeiro dia de nossa lua de mel, em Londres, quando ela disse:

— Tenho ideia para um ótimo passeio.

— Ver o Big Ben? Adoro relógios!

— Pensei num lugar mais interessante ainda.

— Já sei! O Palácio de Buckingham! Vou aproveitar para comprar um daqueles chapéus. Devem ser ótimos no inverno.

— Errou de novo. Quero ir na Rua do Padeiro 221B.

— Eu topo! Não tem nada melhor do que uma padaria! Se um dia eu tiver uma editora, ela vai se chamar Padaria de Livros. As duas melhores coisas da vida num nome só.

— Não! Baker Street 221B é o endereço do Sherlock Holmes.

— Ah… Mas eu só li um livro dele — lamentei.

— Tudo bem, eu compenso: li um monte.

Fomos até lá, é claro. Na porta havia um homem tocando violino. E muito mal. Sem querer, fiz uma careta. Ele percebeu e disse:

— Meu personagem tocava violino muito bem, mas eu sou uma lástima.

— Seu personagem?

— Torero, você não está reconhecendo esse bigode? É Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes.

— Puxa! Elementar, minha cara Rita.

— É a primeira vez que ouço essa piada — disse ele. Desconfio que fosse ironia. Rita tentou compensar as coisas:

— Sir Arthur, li vários de seus livros. Sou uma sherlockiana. É um prazer ver como o senhor junta as peças de um caso. Os fatos parecem que jamais vão se encaixar, mas Holmes, digo, o senhor sempre consegue achar uma explicação aceitável e surpreendente. Também gosto do fato de seu detetive não ser um mocinho ingênuo e perfeito. Ele é cheio de defeitos. Isso o deixa mais atraente ainda.

“É por isso que você gosta de mim”, pensei, mas não falei. Doyle tomou a palavra:

— Sherlock é uma bobagem. Vocês leram algum dos meus romances históricos?

— Nenhum — respondemos em coro.

— Esse é o meu problema. Sempre achei as histórias de Sherlock algo menor. E considerava meus romances históricos como meu verdadeiro legado. Mas parece que as pessoas não concordam com isso.

Resolvi ser solidário:

— Eu também escrevi romances históricos, mas meus livros infantis fazem muito mais sucesso.

Foi a vez de Doyle me consolar:

— Não fique chateado com isso. Talvez seus romances históricos também sejam infantis. Agora, com licença, vou voltar a tocar.

Ao ouvir isso, saímos dali rapidinho. Só deu tempo de tirar essa foto.

José Roberto Torero

Escritor e roteirista, Torero nasceu em Santos (SP), em 1963. É autor de O chalaça (prêmio Jabuti na categoria romance em 1995) e Os vermes, entre outros. Também é autor de livros de não ficção e de literatura infantojuvenil. Ao lado de Paulo Halm, assinou o roteiro do longa-metragem Pequeno dicionário amoroso.

Rascunho