Confesso que nunca soube nomear direito o que sentia ao assistir a filmes como O homem de palha ou Midsommar. Havia ali uma coisa diferente do horror urbano dos slashers, algo que cheirava à terra e a cerimônias antigas. Só fui descobrir mais tarde que esse algo tinha nome: folk horror.
Tempos depois, soube da campanha de financiamento do livro Medo antigo, uma antologia que a editora O Grifo se atreveu a lançar como a primeira do gênero terror folclórico no Brasil.
Para quem ainda não conhece, é isto: um tipo de aterramento que brota do chão. Das crenças sepultadas fundo, de rituais que a modernidade fingiu esquecer, mas que continuam ali, esperando. E há um terreno fértil no Brasil. Quase intocado.
Foi dessa antologia que surgiu a ideia da revista Labatut.
Ismael Chaves, organizador do projeto, conta que, desde o início, ficou claro que publicar não bastava. “A gente percebeu que era preciso formar uma comunidade em torno do folk horror no Brasil”, ele resume.
O nome escolhido já diz tudo sobre o projeto. Labatut é uma entidade do folclore nordestino. Menos famosa que o Saci ou a Mula Sem Cabeça, mas não menos perturbadora. É lembrada como uma criatura que devora crianças.
Curiosamente, a revista nasceu quase por acidente. Era para ser um e-book de brinde para apoiadores de uma campanha do Catarse. Mas os leitores, ao receberem o mimo, começaram a pedir uma versão impressa. E aí a suspeita virou certeza: existe um público para isso no Brasil, e ele estava com fome.
Os criadores da Labatut se inspiraram em publicações estrangeiras dedicadas ao tema, especialmente as que circulam na Inglaterra e nos Estados Unidos. E o reconhecimento veio rápido: zines e páginas de folk horror de fora, como Scary as Folk, The Harvest Maid’s Revenge e Crossroads, receberam bem a notícia de que havia autores e pesquisadores do gênero por aqui também. Em menos de um mês, a tiragem inicial estava quase esgotada: um feito para uma editora independente em nicho tão específico.
O que me agrada na Labatut é que ela não se limita à ficção, nem ao cinema. Trata o terror folclórico como paisagem cultural mais ampla: literatura, música, quadrinhos, games, folclore, História. “Mais do que um subgênero, o folk horror é uma estética — ele atravessa literatura, cinema, música e até a forma como lidamos com o nosso próprio passado”, explica Chaves.
No fim, leitores que chegaram sem saber bem o que era o gênero saíram com o conceito na cabeça. Outros, já iniciados, encontraram um aprofundamento que faltava no contexto brasileiro.
Há ainda planos para versões digitais, mais presença nas redes e, quem sabe, um podcast Labatut — ideia que, nas palavras do próprio Ismael, “assombra” o projeto desde o começo.
Em um momento em que o horror brasileiro vive uma ocasião fecunda, a Labatut ocupa um espaço singular. Não apenas acompanha o movimento: escava raízes, desencava mitos e oferece ao leitor algo que vai muito além do susto: uma experiência cultural arraigada, ancestral e inquietante.