Ninguém quer ouvir o som do mar

Na praia, o silêncio esperado dá lugar ao ruído alheio, frustrando o desejo de recolhimento e revelando a dificuldade de escutar o essencial
Ilustração: Eduardo Mussi
03/05/2026

Mais uma vez, aproveito o tempo da praia como cenário da crônica. Esses espaços abertos no outono — mesmo o outono-forno do Rio — são possibilidades amplas de alargar os olhos para além das paredes, da rotina exaustiva, do tudo o mais das redes, tanta coisa que se acumula nos ombros, braços, pernas… Ir ao sol, perto do mar, é um grande refúgio. Sempre penso assim, cheia de esperança de que o mar lava mesmo a alma.

Naquela manhã, imersa neste sentimento de querer levar toda a minha roupa suja mental para a limpeza geral, surgi na praia, quase lotada em um dia de semana. Achei meu lugarzinho perto de onde a onda quebra, correndo o risco de fazer parte do oceano quando a maré enche. Ah, o mar… como é lindo, necessário, urgente…

Peguei meus jornais (sou aquela que restou no mundo de papel, que ainda lê os jornais que esvoaçam), mas, em vez de ouvir o delicioso barulho das ondas, comecei a ouvir uma mulher falando sem parar. Ela contava uma história sem vírgulas nem parágrafos para uma roda de amigos absolutamente emudecidos. Mudava de um assunto para o outro, contando todos os últimos meses da sua vida amorosa. Impossível não ouvir, mesmo com interesse zero pelas histórias.

O mais estranho era que ela estava de costas para o mar. A única. Os demais, homens e mulheres emudecidos, estavam de frente para ela e para o espetáculo das ondas. Foi difícil abstrair e me concentrar no meu ritual: jornais, limpeza da alma, sol, esticar serenamente as pernas na areia… São coisas tão simples e boas que ficam perfeitas no silêncio, apenas com o barulhinho do mar ao longe.

Percebi que esse cenário é uma distopia minha, que talvez tenha existido ou ainda exista só em praias desertas. Meu tempo de praia foi reduzido naquela manhã. Não consegui limpar a alma inteira.

As histórias sem fim que a mulher contava eram mais eternas do que as vozes aleatórias que passavam por mim, como a dos vendedores e das crianças, porque essas o vento levava. A voz insistente, que não dava um descanso para seus ouvintes tomava conta do bairro. Recolhi minha esperança em uma manhã inteira de sol e fui estender minhas pernas em outro quintal — sem mar.

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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