Ceticismo do inteligível (2)

Inspirado em Pessoa, texto explora o ceticismo do inteligível e mostra como linguagem, tradução e narrativa moldam a realidade
O poeta Fernando Pessoa, que tem sua trajetória contada na biografia escrita por Richard Zenith
01/05/2026

Dou sequência, aqui, à série de ensaios inspirados no Livro do desassossego, de Fernando Pessoa. Nessa obra, o poeta português, em especial por intermédio de seu semi-heterônimo Bernardo Soares, questiona diversos aspectos da linguagem, da tradução, da comunicação humana. Repito-me: Pessoa revela-se, no Desassossego, mais do que nunca demolidor.

Sua postura diante do real, do concreto, pode-se definir pela reiteração do título desta série de artigos: ceticismo do inteligível. A realidade é vista com desconfiança, como algo que não se pode verdadeiramente apreender, restando não mais que uma imagem num espelho embaçado: “As coisas não valem senão na interpretação delas. Uns, pois, criam coisas para que os outros, transmudando-as em significação, as tornem vidas. Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido”.

O texto de Pessoa, escrito no primeiro terço do século 20, dialoga com discussões atuais sobre “narrativas”. Bernardo Soares sustenta que a narrativa, mais que tradução da realidade, alça-se à categoria de geradora da própria vida, dando sentido a uma natureza apática, amorfa e opaca, senão mesmo morta.

A tradução, a narração, a imaginação tomam o centro do palco e passam a determinar os sentidos e os rumos das vidas individuais e da história coletiva. A expressão, primeiro imaginada internamente, é projetada no entorno e se torna, para cada um e seus circunstantes, a realidade.

Mas nada é muito claro: os sinais, as imagens, os acenos são todos evasivos. A expressão não passa de mera indicação, não se vincula diretamente a seu objeto: “Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo”. A nota aponta para o que teria sido ali escrito, “mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos”.

Essa dificuldade de identificar um sentido inequívoco na expressão humana inclui aspecto íntimo, ligado à relação de um indivíduo consigo próprio. Mesmo nessa esfera em que se poderia esperar melhor compreensão, e mais nítida, espreitam sorrateiras as dúvidas, especialmente ao longo das linhas tortas do tempo. Bernardo Soares admite não se reconhecer em seus escritos antigos, imperando nessa relação/releitura um amargo estranhamento: “Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio”.

Esse estranhamento íntimo pode aprofundar-se, beirando despenhadeiros vertiginosos quando assume ares de plena rejeição. Não se trata de mero esquecimento, então, caso em que o autor não reconhece o que escreveu anos antes; mas do espanto ao sentir que jamais poderia ter sido ele — Bernardo Soares — o autor daquelas linhas: “Certas frases são de outra mentalidade. É como se encontrasse um retrato antigo, sem dúvida meu, com uma estatura diferente, com umas feições incógnitas — mas indiscutivelmente meu, pavorosamente eu”.

O fato é que o tempo opera mudanças significativas não só no texto mesmo — e nos sentidos que dele emanam —, mas no próprio autor e na imagem que este tem de si. As coincidências e conjunções que permitiram a escritura em dado momento se desfazem e redundam em desencontros e desconcertos. A tradução funciona como paliativo — o único, talvez —, mas não conserta todo o estrago feito pelo transcurso de dias, meses, anos.

Passando do plano individual ao global, a própria história se transforma de um conjunto de fatos reais e verificáveis em “um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos”. A história se torna novela: “O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo”. Grandes atores da história, as civilizações, no pensar de Pessoa, existem justamente para construir esse lento romance; o que delas se extrai — sua nata — é “arte e literatura; é, palavras, o que delas fala e fica”.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

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