Enquanto passava roupa, minha diarista, Petrucia Vanda, comentou que tem uma vizinha muda que, apesar de muda, se tornou cantora. Ou que, pelo menos, afirma ser cantora. A mudez é de nascença; nunca ninguém a ouviu cantar. “Como ela pode, então, afirmar que canta?” — eu perguntei. “Ela diz que não canta para fora, canta para dentro.” Senti, nessa ideia, ecos das teses de Clarice Lispector a respeito da escrita, mas me calei; preferi ouvir mais. A vizinha é solteirona, vive com a filha em uma casa que está, em parte, ocupada pela milícia. À noite, quando voltam do serviço, mãe e filha muitas vezes encontram uma escopeta ou um revólver, largados sobre a mesa da sala. Só podem viver no segundo andar da casa, um quarto e um banheiro, pois o resto ficou para os milicianos. Eles chamam essa ocupação de escritório. Há até uma placa na parede: “Escritório de Jesus”.
Nada disso abala Eulália Sofia, a cantora sem voz. “Ela sempre me diz que a música a salva”, minha diarista explica. “Enquanto canta, se esquece dos invasores, que ela não pode mesmo enfrentar.” E, como canta para dentro, e não para fora, não incomoda ninguém. “Mas como ela diz tudo isso, se não fala?” — eu pergunto. “Ela escreve, professor, e escreve muito bem.” Esquece das dores de um cotidiano de cartuchos e de carabinas, é uma artista do silêncio. Como sou cronista e sofro do mal da realidade, como vivo empenhado em me meter na vida dos outros para lhes devorar a história, peço a Petrucia Vanda que me leve até sua vizinha. “Para quê?” — ela me pergunta, desconfiada. Explico que quero não só conhecê-la, mas entrevistá-la. “Eu não podia imaginar que o senhor, além de meu patrão, fosse também um traficante de vidas.”
Ontem, que era sábado, marquei um encontro com Petrucia Vanda na entrada da estação Acari do metrô. Em troca de uma diária extra, ela aceitou servir como minha “tradutora”. Seguimos a pé por ruas estreitas, cada vez mais estreitas, até que chegamos a um beco. “O professor se acalme, que já estamos quase lá.” Logo à frente, Eulália Sofia, a cantora muda, batendo um tapete, nos esperava na porta de casa. Urubus fuçavam um latão de lixo. Cães fedorentos rondavam. Levou-nos direto para o segundo andar onde, em uma cama de casal lilás, ela e sua filha dormiam. Na parede, uma imagem de Santo Antônio, com as mãos estilhaçadas. Por uma bala? Sentei-me à beira da cama. Ela se acomodou sobre um baú, que devia servir como guarda-roupas. Para nos deixar mais à vontade, Petrucia Vanda se trancou no banheiro. Eulália Sofia tinha no colo, preso a uma prancheta, um bloco de notas. Era a sua voz.
Comecei logo pela pergunta mais difícil: como ela podia provar que cantava, se ninguém a ouvia? Moscas, como em uma peça de Sartre, zuniam pelo quarto. Cheirava a lixo queimado. A única janela tinha grades. “Não posso nem quero provar nada”, Eulália Sofia escreveu. “Não canto para os outros, canto para mim mesma.” Havia também muitos mosquitos. Quando comecei a me abanar para espantá-los, ela disse: “Antes era pior, havia os escorpiões”. Tive o impulso de me erguer, ela percebeu. “Não se importe, os rapazes da milícia acabaram com eles”, anotou. Cronistas também têm impulsos, gastrites crônicas e tonturas crônicas. Discípulo do real, porém, um cronista não pode se deixar deter por nada. “E que tipo de música você canta?” — perguntei. Voltando do banheiro, Petrucia Vanda a ajudou: “Seu repertório é maravilhoso. Ela canta até o Babalu”. Mas de que adianta ser exímia nos agudos, até melhor que Angela Maria, se ninguém a ouve?
Quis saber que avaliação secreta ela fazia da própria voz. Se é que podíamos falar em voz, pois cantava só em pensamento. Foi dura comigo: “Sei que canto bem. Mas, como nada posso provar, me calo”. Se é muda, calar-se ou não dá na mesma, pensei, mas não disse. Quis saber, ainda, se não a frustrava não poder gravar seu canto, fazer uma carreira, ser ovacionada. “Até me alivia”, disse. “Assim, se ninguém pode me ouvir, ninguém pode me vaiar também.” Comecei a entender, muito devagar, que havia uma beleza em sua mudez. Cantar só para si, restringir sua vida a seu mundo interior, não prestar contas a ninguém, nem mesmo aos milicianos de que era prisioneira. Isso lhe dava, apesar das grades e das escopetas, uma grande liberdade. “O senhor tome cuidado, professor. Corre o risco de que ninguém acredite no que vai escrever”, Petrucia Vanda me advertiu. “Pode ser que o considerem maluco.” Eulália Sofia deu uma grande gargalhada.
Agora entendo que Eulália Sofia é a única artista verdadeira que conheci. Não precisa de aprovação ou de aplausos. Não precisa nem mesmo de plateia ou de admiradores fanáticos. Não precisa que a ouçam nem mesmo que os outros saibam que é uma cantora. Ser uma cantora lhe basta. Nem os críticos, nem o mercado, nem os seguidores cansativos da internet. Não precisava de nada. Bastava-se. E bastar-se é o melhor de todos os tesouros. Ainda ouço a gargalhada de Eulália Sofia, que sacolejaria os vidros da janela do quarto, se a janela tivesse vidros. Seu apego a si mesma tinha a mesma medida de seu desapego ao mundo. “Vamos parar por aqui?” — escreveu em seu bloco de respostas. E, logo abaixo, admitiu: “Nem sei por que dou essa entrevista. Talvez tenha sido um erro”.
Quando desci, os milicianos já tinham chegado. Um deles, o mais baixo, logo me apontou um revólver, enquanto outro, com as mãos peludas, me revistava. Perguntaram meu nome. “O que você pretende?” — o mais alto ruminou. “Vim conhecer a cantora”, eu disse sem pensar. O mais baixo me empurrou sobre uma poltrona: “Não temos cantora alguma aqui. Só a mudinha e a filha. Vá desembuchando”. Como convencer alguém da verdade, quando a verdade é absurda? Talvez fosse melhor inventar uma desculpa, mas qual? “Ele é meu patrão em Botafogo”, Petrucia Vanda tentou me salvar. “Ele é professor.” O altão deu uma gargalhada. O de mãos peludas foi até uma gaveta e trouxe uma corda. Sem dizer nada, começou a me amarrar. Depois me amordaçou. “Agora cante”, debochou. Não me lembro de mais nada.