Thelma & Louise

Dor, memória e trabalho se entrelaçam quando um clássico do cinema reacende reflexões sobre o corpo feminino e suas restrições no mundo masculino
Detalhe do cartaz de “Thelma & Louise”, do diretor Ridley Scott
01/05/2026

Há algumas semanas, tive uma dor extrema. Ela me alcançou ali pelas duas da manhã e me fez gemer, encolhida na cama. Tomei o analgésico costumeiro, que não surtiu nenhum efeito. Meia hora depois, quando ainda conseguia levantar da cama, fui até o banheiro e tomei o segundo comprimido. Nada. Eu respirava fundo, puxando o ar pelo nariz e soltando pela boca, tentando me tranquilizar diante de uma intensidade alarmante. Como num trabalho de parto, a dor ia e vinha — e, quando vinha, meu pai do céu.

A essa altura, chamei meu marido insone por mensagem, já que andar até a sala não era mais uma possibilidade. Expliquei que precisava de um terceiro comprimido. Ele me olhou preocupado e disse que ia preparar uma bolsa de água quente. Respondi — a fala já entrecortada pelos golpes certeiros da dor — que ele podia fazer o que quisesse, mas que me desse um terceiro comprimido imediatamente. Minutos depois, ele volta com a bolsa de água quente e deita ao meu lado. Emudecida pela dor lancinante que me cortava o baixo ventre sem dó, entro em pânico, convicta de que teremos que ir para a emergência de um hospital e, entorpecida pelo ibuprofeno, adormeço.

Três dias depois, levei a dor para a terapia. E, ao discorrer sobre a intensidade e sobre o analgésico retardatário, lembrei que durante vinte e quatro anos, eu tomava o mesmo analgésico, então efetivo desde a primeira cápsula, de véspera. Minha terapeuta pareceu intrigada. Esclareci que, sabendo que a menstruação se aproximava, me valia de um analgésico preventivo. “Antes de sentir dor?”, ela me perguntou, espantada. E então me ouvi dizer o que nunca havia verbalizado: “Antes, claro, eu não podia sentir dor no trabalho”. Ela arregalou os olhos. Prossegui explicando ter entendido rápido que naquele ambiente não havia espaço para dor, desmaio e muito menos resgate materno como acontecia na adolescência. Confrontada por essa realidade, montei a estratégia, modéstia à parte, muito bem-sucedida, e dava início ao processo de analgesia de véspera, de forma que, quando a dor chegava, chegava bem acanhada, nada que me impedisse de continuar trabalhando. Afinal de contas, naquele universo masculino, dor, sentimentos em geral, essa gente estranha que menstrua, às vezes tem filho e amamenta, não são bem-vindos. O melhor a fazer era, na hipótese indesejável de menstruar, não ter dor; idealmente não ter filho, mas na hipótese indesejável de ter, de preferência não amamentar para poder retornar ao trabalho o mais rápido possível.

Estava eu imersa nesses pensamentos intranquilos, repassando o que levara para a terapia, quando surge, na tela à minha frente, o cartaz do Festival de Cinema de Cannes de 2026. Uma fotografia em preto e branco de Roland Neveu, com Susan Sarandon e Geena Davis, em Thelma & Louise, filme de Ridley Scott que estreou em Cannes em 20 de maio de 1991. O road movie feminista acompanha duas amigas, a dona de casa Thelma (Geena Davis) e a garçonete Louise (Susan Sarandon), em uma viagem de fim de semana que toma um novo rumo quando Louise, vítima de um estupro anos antes, mata o homem que tenta estuprar Thelma.

Os organizadores do Festival de Cannes, em comunicado oficial, elogiaram o filme: “Estas duas combatentes inesquecíveis inverteram as regras do jogo e destruíram alguns estereótipos de gênero, tanto sociais como cinematográficos; encarnaram a liberdade absoluta e uma amizade inabalável; mostraram o caminho para a emancipação quando ela se torna vital”.

Belíssimo o cartaz e justíssima a homenagem a esse filme-manifesto que, a meu ver, tem a condição feminina num mundo de homens como tema central. Aqui abro um parêntese. Não poderia deixar de comentar a cena — magistral — retratada no cartaz do festival. Depois de serem abordadas repetidas vezes por um motorista de caminhão grosseiro, as amigas o convidam para saírem juntos da estrada. Param o carro em meio a uma paisagem desértica e se posicionam como aparecem na foto de Neveu, aguardando a aproximação do sujeito asqueroso que, animadíssimo, pula do caminhão, não sem antes arrancar a aliança. Após um breve diálogo, em que as amigas confrontam o idiota desclassificado e exigem que ele peça desculpas — o que obviamente ele se nega a fazer —, Thelma e Louise atiram no tanque do caminhão, que explode. Sim, o roteiro é assinado por uma mulher: Callie Khouri.

Impressiona a constatação de que o filme de 1991 continua atual. Da dor malvista no mundo corporativo, passando pela maternidade sempre inoportuna no mercado de trabalho, até a impossibilidade de ser mulher sem ser atacada ou diminuída na vida cotidiana, o que mudou de 1991 para cá?

Gosto da cena final, a que assisti na telona do antigo cinema Leblon 1 e revi semana passada. As duas amigas juntas até o fim, não se curvando às ordens masculinas — “eu não vou me entregar”, diz Louise para Thelma —, celebrando, de mãos dadas, naquele voo sobre o Grand Canyon, o pacto da amizade inabalável, da aliança feminina que deveria guiar as relações entre mulheres. Nos últimos segundos do filme, encurraladas pela polícia à beira de um precipício e entendendo que não há retorno possível, Thelma diz a Louise: “Let’s keep going”.

Clarisse Escorel

É escritora, advogada e especialista em Propriedade Intelectual e Direitos Autorais. Estreou na literatura em 2023 com o livro de crônicas Depois da chuva (Ouro sobre Azul). Vive no Rio de Janeiro (RJ).

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