Literatura brutal e sala de aula (3)

Quanto mais o aluno é estimulado a ver no texto literário a realidade, o dia a dia, mais ele poderá ter interesse pelas obras
Carlos Gildemar Pontes, autor de “O olhar tardio de Maria”
01/05/2026

No centro do conto O sorriso de brinquedo, de Carlos Gildemar Pontes, se situam as imagens mais impactantes, de maior brutalidade: “…o chefe saltou sobre o da boneca e dividiu sua cara ao meio com uma giletada. O sangue quente nos dentes… Todos sacaram suas giletes e retocaram uns aos outros. O velho barrigudo segurava a torneira da jugular”. Na cena os objetos cortantes (giletes) e o sangue que espirra da veia de um dos mendigos são as principais marcas do realismo “cru e duro”, indicado por Marcelo Coelho no seu artigo sobre a “escola da literatura da violência” no Brasil, que foi iniciada por Rubem Fonseca. O conto se passa num grande centro urbano, pela indicação do “depósito do lixão”. O lixão é um espaço normalmente insalubre, nocivo, mas que aglomera os miseráveis das periferias à cata de alimentos ou de objetos ainda com alguma utilidade. O fato de crianças participarem da cena torna mais agudo o quadro de pobreza extrema retratado no conto. A narrativa, por outro lado, é fria, dessentimentalizada ao extremo, dando lugar à violência física, como em Feliz Ano Novo. Há também um outro tipo de violência, a que remete ao desamparo infantil, metaforizada na situação de vulnerabilidade da criança, que pede esmola no sinal e que é vítima potencial da violência sexual (“O sujeito do outro lado da rua tem planos para a menina.”). E por que levar um conto tão violento para a sala de aula, para adolescentes do Fundamental II, por exemplo? O objetivo é fazer com que o aluno perceba as relações da literatura com a vida, com a sociedade. No cotidiano das médias e grandes cidades, e isso está no noticiário, na internet, a que os adolescentes têm acessos a toda hora, a violência é uma realidade incontornável. Quanto mais o aluno é estimulado a ver no texto literário a realidade, o dia a dia, mais ele poderá ter interesse pelas obras — e dimensionar situações, refletir sobre tipos histórico-sociais, sobre temas/problemas que não são de outro tempo, mas do tempo/espaço onde ele está inserido.

Rinaldo de Fernandes

É escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba. Autor de O perfume de Roberta, entre outros.

Rascunho