O tempo de Hatoum

Nos últimos 20 anos, memória, amizade e literatura se cruzam em afetuosos encontros com Milton Hatoum
Milton Hatoum assumiu a cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras
04/05/2026

Era início deste século, acho que 2003, março com mormaço, um final de verão com tempo fechado, teto baixo, carregado de nuvens em Santos, a cidade rodeada de serra que já deu até título de livro: A muralha, de Dinah Silveira de Queiroz. Neste dia, há mais de vinte anos, eu estava inquieto, aguardando a chegada na cidade de um escritor nortista, um árabe amazônico, ou melhor, um filho de árabes nascido em Manaus. Havia lido, há pouco tempo, Dois irmãos. Lembro que li sobre o romance na coluna do jornalista Daniel Piza, que não poupou elogios ao romance — o que não era pouco para um exigente leitor como Piza. Vocês já sentiram essa sensação de abafamento do mormaço santista? A gente sua só de acenar ao conhecido; o dia pede movimentos lentos para não aumentar o desconforto. Meu convidado chega pela manhã para um dia de entrevistas com a imprensa para, no começo da noite, termos o evento principal, que será o encontro com os leitores santistas. A conversa será mediada por este que vos tecla.

Ao sair do carro, ele me cumprimenta, olha em volta, olha para o céu, para a livraria e, por instantes, fica pensativo, e sorri sem dentes para emendar um pensamento alto: “Como parece Manaus, que clima perfeito, que dia lindo”. Eu ri amarelo e pensei: que bom que ele está bem, se sentindo em casa. No movimento seguinte, um ritual que vi poucas vezes, o de se enrolar um cigarro de rolo, de, tranquilamente, fazer toda a confecção de seu cigarro de palha, enquanto conversa sobre o nosso mundo em comum: falávamos sobre a livraria, sobre como expunha os livros nas vitrines. Ali já se iniciava uma amizade calcada em nossas raízes, eu, neto de libaneses, e ele, filho. Lembro que brincamos que temos em nossas cabeças de filhos de imigrantes algo como uns armarinhos, uma loja de secos e molhados mental, que nos move a tentar solucionar missões no momento em que se apresenta, a urgência de sobreviver. Essa imagem é evocada até hoje nas nossas conversas.

Fomos comer em um bar que ficava perto do canal dos navios, na Ponta da Praia. Bebemos pouco, pedimos peixe, e o prato trouxe uma informação inesquecível — a de que o povo ribeirinho conhece mais de cento e cinquenta espécies de peixes de água doce. Nisso, o telefone toca: era Ruth, sua companheira, que perguntava se estava tudo bem. No mesmo instante, ouço algo como: “Zé Luiz é um sultão, Ruth”. O meu convidado estava feliz, num dia abafado amazônico em Santos.

Naquela noite, ouvi uma passagem da vida do nosso autor que ficou impressa na minha memória: o dia em que o seu finado pai, quando estavam no Líbano para o primeiro evento de um livro seu traduzido para o árabe, trazia um jornal do dia, com uma crítica ao livro recém-lançado. O pai leu em voz alta sobre o livro do filho, que não sabia ler na língua nativa dos seus antepassados.

Nesses mais de vinte anos de convivência, tivemos quase uma dezena de eventos com leitores. Tivemos a sua vinda na primeira edição do festival que criei para radicalizar a experiência dos encontros entre leitores e escritores. Tive a honra de tê-lo como patrono de um clube de assinaturas, nascido em meio ao período pandêmico, entre outras belas parelhas dos nossos armarinhos.

Não há cerimônia entre amigos e, assim, sem ensaios, recebo uma mensagem com um pedido de informações, algo que estaria no conteúdo de um livro que estava em construção, o primeiro livro de uma trilogia, o Noite da espera. Parte do romance se passava em Santos, terra de imigrantes e para que tivesse mais detalhes sobre uma moradia das personagens, fui consultado, passei algumas sugestões e isso o animou. Ele estava vindo se hospedar num hotel à beira-mar para concluir o livro. Marcamos de irmos até o local que serviria à ficção, andamos por ruas da bacia do mercado, chegamos aos chalés de madeira construídos de forma rústica há quase cem anos, o autor se nutria das imagens, se nutria tateando as paredes e anotava seus apontamentos num pequeno caderno.

Quando mais uma vez sem cerimônias recebo uma mensagem apenas me perguntando qual era o meu e-mail, não estranhei, apenas me deixou curioso, claro. Instantes depois recebo o convite para a cerimônia de posse na Academia Brasileira de Letras.

Depois de uma breve reflexão sobre a ABL e seus participantes, alguns mais distantes da criação literária para dizer o mínimo, pensei que estava aí algo mais do que perfeito, um dos nossos grandes autores levado à imortalidade. Dito isso, li sobre as informações no convite e estava lá: traje, passeio completo, dei um Google e vi que, ironicamente, passeio completo é terno e gravata, não é como me visto para um passeio. Mas vá lá que o momento é raro, e, pior do que eu, estará o empossado, enfiado num fardão e em um momento da posse empunhará uma espada.

Chegamos cinco minutos atrasados, e para a minha surpresa o evento já havia começado, talvez o chá e o bolo inglês realmente tenham trazido o rigor da pontualidade para a cerimônia.

Em seu discurso de posse, ouvimos boas histórias costuradas por pessoas que lá estavam presentes, exemplo disso foi a menção da presença do dr. Dráuzio Varella, que recentemente publicou uma obra sobre a Amazônia, um de seus trabalhos mais importantes no que se diz à biomedicina e à expedição científica. Disse que o Doutor estava num trabalho de campo e viu um senhor observando o movimento das águas em estado contemplativo, e quando voltava do trabalho de campo horas mais tarde ficou intrigado de ver o homem ainda lá. Perguntou: “O que está fazendo, meu senhor?”. O homem…: “Estou sentado”.

A plateia riu; todos rimos da simplicidade e da relação com o tempo em outros modos de vida que pensamos não existir.

E o tempo passou nesta noite inesquecível, com citações do imortal evocando Guimarães Rosa, Machado e Cícero Sandroni a quem sucedeu na cadeira número seis da ABL.

Depois do belo discurso, partimos para a celebração e um coquetel e ali se fizeram várias aproximações e trocas. Afinal, os armarinhos mentais nos empurram para articular alianças que resultarão em novos eventos em Santos, os armarinhos não dão trégua.

Pedi um retrato para a atração da noite, no que fui prontamente atendido, trocamos algumas breves ideias, não é certo privar o tempo do amigo, a casa está repleta e há uma fila atrás de mim aguardando para também celebrar o recém-empossado.

Munido do retrato que logo irá para as redes sociais, provando que tudo realmente aconteceu, resolvi, na manhã seguinte, enviar para um grupo de amigos próximos. Nesse grupo, falamos de futebol, da vida miúda e, claro, provocamos uns aos outros, um dos esportes preferidos nesses grupos.

Tive uma lição que me divertiu demais, enquanto relembro a resposta pós-envio da foto, volto a rir alto. Essa lição me foi dada para nos lembrar que há outros mundos e que não há mundos mais corretos do que outros, e que por vezes achamos que todos estão na mesma página, no mesmo círculo, com os mesmos interesses e referências.

Na imagem, estamos eu e o Milton Hatoum, eu de passeio completo, ele de fardão, sem a espada, com seus cabelos brancos desgrenhados e óculos de aros grossos, nós dois com sorrisos largos e eu com uns vinhos a mais.

No grupo de WhatsApp dos camaradas me vem o comentário:

— Quem é esse contigo? É o Chacrinha?

José Luiz Tahan

É livreiro, editor e idealizador do festival Tarrafa Literária. Autor da antologia de crônicas Um intrépido livreiro nos trópicos (Vento Leste).

Rascunho