Ler a grande mídia, para mim, é um exercício de adivinhação. Não conheço a maioria dos nomes que aparecem nas manchetes.
Descubro que existe uma pessoa chamada Benji qualquer coisa, que, pelo visto, será pai. Bacana para ele, mas não faço ideia de quem seja. A internet me informa que é um guitarrista tipo super-hiper-megaimportante. Continuo sem saber. Para mim, Benji é nome de cachorro.
Uma mulher diz à Justiça que a ex tentou cinquenta contatos inoportunos. Ô, meu bem… Por onde começo?
Atriz rebate críticas após ser comparada a Gollum, de O Senhor dos Anéis. Gollum eu sei quem é, serve?
Moça linda (tem foto) é a nova queridinha das novelas. A última novela com que tive contato com foi Ninho da serpente, que passou em 1982 na Band. Minha mãe assistia e eu, clandestinamente, de vez em quando pegava um capítulo aleatório. Não lembro do que se tratava tanto pela distância no tempo quanto pela escassez de informação, já que a televisão era um demônio proibido, e eu tinha de estar na cama às 19h.
Nunca, jamais, esqueceremos de Caetano atravessa a rua no Leblon.
Nesse ponto, os gringos sabem das coisas. Na BBC, leio sobre “a história extraordinária de Hércules, o urso que um casal adotou e criou como parte da família”. Agora sim.
Felipe, amigo querido e antigo, sempre me propôs fundarmos o clube CBC. Cadeira de Balanço e Carabina. Ficaríamos (ficaremos?) os dois, velhinhos, reclamando de tudo e de todos. A impaciência com o mundo nos une já lá se vão mais de vinte anos.
O dia das mães se aproxima e nós dois já perdemos as nossas. Mais uma impaciência em comum. É uma data, assim como o dia dos pais, que assume muita coisa sobre a vida do outro. Existe um termo similar a heteronormativo para família? Se não existe, deveria existir. A quantidade de gente que eu conheço que não se dá com mãe, pai, irmão, sei lá, minha nossa. Ah, mas o marketing não admite isso. Você é obrigado a gostar de tal familiar e demonstrar isso necessariamente com um produto qualquer. Quanto mais caro, melhor. É assim que se mede amor, somos ensinados desde cedo.
Voltando aos jornais, leio com curiosidade sobre o caso do professor universitário desaparecido por cinco anos e encontrado vagando por aí. Claro, a profissão igual nos aproxima, mas o que me fascina de verdade na história é a parte do vagando por aí. Aí o sujeito é encontrado. Lúcido, consciente e livre. Poderia ter voltado ou dado notícias a qualquer momento nesses sessenta meses. A polícia recolhe o sujeito e avisa a família. Ele queria isso? Duvido. Se quisesse, teria entrado em contato em qualquer um desses mais de 1.800 dias. Aí a imprensa mostra uma mãe comovida, o policial bonzinho e gentil, a família reunida, um anúncio de margarina. Sei lá, acho estranho. Em seguida, vem a notícia de que o professor não quer viver com a família. Cêjura, Captain Obvious? Tem algo de errado nessa história. Visto daqui, esse reencontro não tem nada de final feliz.
Essa expectativa de que a gente vai gostar de parente é uma coisa muito doida.
Na mesma toada, a gente também não precisa se interessar pelas celebridades, não, sabe? Não é lei isso, não. A gente pode cuidar da própria vida. É possível. Tenha fé que você consegue. Confia.
Quando cheguei
Momento cara de pau: no próximo sábado, 9 de maio, lanço a coletânea de crônicas Quando cheguei. É um compilado atualizado, desorganizado e talvez aleatório de crônicas que já foram publicadas aqui no Rascunho. O convite:
Lançamento: Quando cheguei (Caos & Letras)
Crônicas de Carolina Vigna
9 de maio (sábado), às 17h
Local: Patuscada | Rua Luís Murat, 40 | Vila Madalena | São Paulo – SP