“Aqueles que matam a linguagem não são puros”, escreveu Camus em A queda. E pensar a linguagem é dialogar com a identidade e com a maneira como o mundo funciona. Quando Rimbaud escreveu “je est un autre” — algo como “eu é um outro” — a tensão sobre a questão da identidade ricocheteava para além dos padrões gramaticais e atingia em cheio os debates a respeito de gênero, pertencimento e classe social. Como se vê, não é de hoje que a literatura se propõe a tentar espelhar o mundo, escarafunchando as suas feridas éticas e sociais. E, talvez, a ficção científica tenha sido o gênero que melhor soube explorar os temores do agora ao projetar o amanhã.
Ian McEwan, em O que podemos saber, parece estar interessado em como o mundo que conhecemos hoje será lido no futuro. Diferentemente de Máquinas como eu, publicado em 2019 — livro em que o autor discute os limites éticos da ciência por meio do vale da estranheza —, seu romance mais recente é uma ficção científica sem ciência e investiga uma sociedade fragmentada e nostálgica, que reconhece o seu fracasso, mas tenta sublevar o fim com um cinismo tipicamente inglês.
O que podemos saber não é um roman-à-clef, mas o leitor que notar que o título é uma afirmação, e não uma pergunta, já tem certa vantagem na compreensão do livro. No romance, acompanhamos Tom Metcalfe, um pesquisador universitário em 2119, que se debruça sobre um longo poema escrito em 2014 por Francis Blundy e lido somente uma vez, durante o jantar de aniversário da sua esposa, Vivien. Para McEwan, vivemos uma “era de ouro”, em que temos acesso quase irrestrito a comida, roupas, tecnologia e cultura. O futuro de Metcalfe não é exatamente sombrio: a definição mais acertada talvez seja racionada. E a motivação desse cataclisma está no conflito entre Rússia e Ucrânia. O Kremlin, para tentar dar fim à guerra, lança um míssil que afunda boa parte do Reino Unido — que se torna uma península — e algumas cidades costeiras dos Estados Unidos, que são governados por forças rivais, à guisa de sua guerra civil no século 19. Nesse cenário distópico, a Nigéria é a potência dominante e a detentora da tecnologia que move a sociedade. Tentando escapar da realidade aterradora, Metcalfe se apega ao poema de Blundy como o personagem de Owen Wilson em Meia-noite em Paris fez com a geração perdida.
Ao longo de todo o livro, temos a sensação de que O que podemos saber é uma viagem no tempo, não de forma literal, mas na impossibilidade de aceitar a atualidade. Tom e sua companheira, Rose, lembram o personagem de Kazuo Ishiguro em O artista do mundo flutuante e estão sempre presos no passado. A diferença, entretanto, está no fato de que, na obra de Ishiguro, o sujeito viveu o momento que ressente ter ido embora — o Japão antes da Segunda Guerra — e, em McEwan, o que testemunhamos é uma anestesia ao real, uma nostalgia que nasce do deslocamento temporal imediato. Por isso, tudo na vida de Tom e Rose gira em torno dos Blundy e seus contemporâneos, buscando entender as raízes do mundo em um tempo fraturado e estranho.
Por isso, a nostalgia é um elemento tão importante na vida de Tom e Rose. Se a música existe porque a realidade não basta, a nostalgia também funciona como essa válvula que deixa tudo suportável.
E existe outro fator interessante: as ciências humanas são transformadas em uma subcategoria do pensamento, quase uma invalidação do saber em favor da tecnologia e das engenharias; portanto, as pesquisas de Metcalfe esbarram em questões burocráticas e orçamentárias. Infelizmente, as coisas só pioram.
Especulação
Se a literatura de Ian McEwan começou explorando o macabro e o bizarro (basta voltar aos excelentes contos de Primeiro amor, últimos ritos e às primorosas novelas O jardim de cimento e Ao Deus-dará), o seu cinzel aos poucos foi vislumbrando as complexidades das relações e a estranheza que conduz o universo. Ainda assim, existe algo que jamais mudou: a sua literatura está sempre especulando, seja sobre os instintos mais brutais — e até onde somos capazes de nos deixar conduzir por eles —, o peso da culpa — o fio condutor de sua obra mais famosa, Reparação, e de Serena e Lições, romances interessantes que tocam em um tema que se tornou comum na sua produção, a Guerra Fria —, seja sobre o futuro — como em O que podemos saber e Máquinas como eu. No final das contas, o que McEwan tenta colocar à vista é justamente o que o verniz social esconde.
E, como em quase todo artista cujo corpus da obra se avoluma, em O que podemos saber encontramos pontos em comum com outros livros de Ian McEwan que, claro, não está só. Em Paul Auster isso se dá na perspectiva dos seus personagens sempre à deriva da realidade, como se preferissem o absurdo da fantasia à sobrecarga da realidade. Sunset Park e Noites de oráculo, dois romances excelentes que não me deixam mentir, são a materialização das obsessões de Auster, inclusive pela geografia sentimental do Brooklyn. Philip Roth preferia personagens judeus não praticantes e sexualmente reprimidos ou perversos. O Complexo de Portnoy está no mundo como prova. Haruki Murakami usa o jazz, os gatos, a fantasia, a literatura clássica e a cultura pop para criar retratos do subconsciente.
Em O que podemos saber, temos um bê-á-bá muito bem formulado da arqueologia do escritor. Como dito, muitos dos seus temas favoritos estão no livro. A crítica política, observando presente, passado e futuro, se constrói como um dos eixos da obra. Muitas vezes, esses comentários estão diluídos na trama de uma forma mimética e que conduz a narrativa — como já havia feito em O inocente — ou podem estar inseridos com toda a clareza possível, de uma maneira quase paródica, como em A barata. Questões sobre culpa e segredo também estão presentes e, penso, esses são os artifícios literários favoritos de McEwan, que levam o leitor pela mão na sua sempre tão bem executada manipulação. E, por esse motivo, O que podemos saber é dividido em duas partes, uma narrativa e outra reveladora — artimanha interessante, mas que o escritor tem usado bastante e que se torna um pouco repetitiva. Reparação e Serena, por exemplo, são assim: o final, seja uma segunda parte, seja um capítulo último, é sempre revelador. Ainda que não desabone o livro, a estratégia deixa um gostinho de “já vi isso antes”.
O que podemos saber é talvez um dos melhores retratos da nossa época, e não por ser estritamente fiel, mas por conseguir capturar sem artificialidade o espírito do tempo. E o jantar de aniversário de Vivien é a ruptura com o futuro idílico, um pouco porque 2014 parece ser o fim da inocência do século 21: o discurso de ódio se solidificando na internet; a extrema direita entrando no debate político com atenção das massas; a queda da popularidade dos governos progressistas; as crises políticas e econômicas. Tudo equalizando o cansaço de uma época que estava morna e se preparava para o turbilhão que viria com Trump, Boris Johnson, Bolsonaro e Milei. Dali em diante, seria o caos em diversos patamares. Note que, como já comentado, a Guerra da Ucrânia é o evento que sela o fim do mundo como o conhecemos. Com isso, McEwan mostra que o desastre é algo que está, como a cadela do fascismo, sempre no cio.
O que podemos saber é uma obra em andamento, que ainda vai levar tempo para ser digerida como deve, mas se revela desde agora um livro importante para tentarmos desvendar o legado que estamos deixando para as próximas gerações. O que McEwan faz é literatura de verdade.