O mestre de cerimônias de si mesmo

A escrita virou espetáculo: antes da coluna, vêm teaser, vídeo, live e métricas, enquanto o autor tenta achar tempo para viver o que comenta
Ilustração: Bruno Schier
03/06/2026

No passado, para ser cronista, bastava ter uma máquina de escrever, algumas neuroses e um prazo. Hoje, é preciso ter um estúdio no quarto.

Descobri isso ao conversar com um jovem colega. Perguntei quantas colunas ele escrevia por semana.

— Depende.

— Depende de quê?

— Do alcance.

Achei estranho. Quando comecei, uma coluna dependia de assunto. Muitas vezes, nem isso. Havia cronistas que conseguiam batucar oitocentas palavras sobre uma colher de chá e ainda terminar com uma reflexão sobre a condição humana.

Hoje, a colher de chá precisa ter perfil no Instagram.

O cronista moderno não escreve mais uma coluna. Ele lança uma operação militar.

Primeiro, vem o teaser da coluna. Em seguida, o vídeo anunciando o teaser. Na sequência, o corte do vídeo anunciando o teaser. Aí vem o podcast comentando a repercussão do teaser. Então, a live reagindo aos comentários do podcast. Por fim, a newsletter explicando os bastidores da live.

A coluna propriamente dita entra em algum ponto desse processo, mas ninguém sabe exatamente quando nem onde.

Outro dia, encontrei um cronista exausto.

— Muito trabalho?

— Nem me fale.

— Escrevendo muito?

— Não. Divulgando que vou escrever.

Parece piada, mas é uma profissão nova. O sujeito acorda às seis para produzir conteúdo sobre o conteúdo que ainda produzirá. Às sete, participa de uma mesa-redonda sobre o futuro da escrita. Às oito, grava um vídeo ensinando técnicas de produtividade. Às nove, publica uma foto contemplativa olhando pela janela, com a legenda: “Reflexões importantes, em breve”.

Às dez, ainda não refletiu nada, mas o importante é manter o público informado.

Os cronistas-raiz conviviam com um editor. Os cronistas 3.0 convivem com gráficos. Antes, alguém dizia:

— O texto ficou bom.

Agora, alguém informa:

— Você aumentou em 12% a retenção da audiência entre homens de 35 a 44 anos interessados em jardinagem e crise existencial.

É um elogio diferente.

O mais curioso é que o cronista passou a ser uma espécie de mestre de cerimônias da própria existência.

Ele não apenas escreve. Ele apresenta o fato de que está escrevendo. Comenta o processo de escrita. Analisa o impacto do texto. Modera um debate sobre o que produziu. E encerra agradecendo aos patrocinadores pela experiência de ter postado.

Por vezes, imagino o que aconteceria se Rubem Braga aparecesse numa redação de hoje.

Alguém lhe entregaria um microfone.

— Rubem, precisamos de três reels, um podcast, um carrossel e uma live explicando sua crônica sobre o sabiá.

Ele acenderia um cigarro. Olharia para o pássaro. Miraria o assessor. E provavelmente escolheria conversar com o sabiá. Porque o bichinho, pelo menos, ainda não pede engajamento.

E talvez seja essa a grande tragédia do cronista 3.0. Ele continua comentando sobre a vida. Só não encontra mais tempo para vivê-la.

Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

Rascunho