Já disse por aqui que leio bastante, e tento não deixar que outras atividades da vida diária engulam meu importante tempo de leitura. Esse tempo já foi engolido outras vezes, aqui e ali, por esta e aquela razão, mas desde 2019 tenho sido mais feroz nessa defesa. Vem dando certo.
Num dos meus pitstops de leitura entraram na fila dois livros muito diferentes entre si: Uma mulher singular, da intelectual estadunidense Vivian Gornick, autora de obras sobre feminismos e escrita criativa, e O idioma materno, do ensaísta egípcio-mexicano Fabio Morábito. O primeiro foi publicado pela Todavia em 2023, com tradução de Heloisa Jahn; o segundo saiu pela Relicário em 2025, com tradução de Mariana Sanchez. Para quem acompanha a cena brasileira de publicações literárias, é dispensável dizer que são duas craques da tradução. E são. Num caso, o livro vem do inglês; no outro, do espanhol, como parece óbvio.
O que quero comentar aqui, no entanto, não diz respeito ao tema das obras, nem se parece com uma resenha dupla. São dois livros gostosos de ler ou “bons de ler”, uma espécie de categoria perseguida por muitos editores e muitas editoras que desejam cair nas graças de leitores e leitoras (aprendo isso sempre com uma grande editora brasileira). São livros de texto fluente, bem traduzidos, ambos com menos de 200 páginas, bem editados, bons companheiros, isto é, desses que a gente pode carregar por aí, andar de mãos dadas, sacar da bolsa em alguma sala de espera ou durante um trajeto, sentir-se flutuar um pouco, perder a noção do ruído lá fora, entrar numa história ou outra, escutar uma voz, flanar pelas ruas de Nova York, no caso da Vivian Gornick. Mas a questão não é essa.
A questão é que os dois títulos me fizeram pensar na crônica como um gênero tão querido e tão evitado no Brasil. Isso me dá sempre muita pena. Às vezes comento com amigos que a crônica só sobrevive porque as escolas ainda gostam dela. Claro, ela está em blogues e outros espaços digitais, por aí, mas editorialmente ela respira por aparelhos. Explico: um dos espaços privilegiados da publicação de crônicas em nosso país foi o dos jornais impressos. Como sabemos e podemos ver em qualquer ex-banca de jornais, eles estão em extinção (os impressos; os jornais tentam sobreviver digitalmente). Os espaços de cronistas escassearam, e mesmo que ainda estivessem lá, misturam-se aos dos comentaristas sem compromisso literário. Mesmo que ainda existissem muitas colunas para crônicas, o gargalo era e é apertado, de modo que ser um ou uma cronista lido e conhecido é para bem poucos. Mesmo que a crônica seja e tenha sido um gênero querido, seguido por muita gente (havia quem comprasse o jornal da segunda ou da quinta em razão da coluna do Cicrano ou do Beltrano), ela sempre dependeu sobretudo da publicação periódica, da folha efêmera, da leitura avulsa. Os livros de crônicas, objeto que mais me interessa aqui, geralmente resultam do ajuntamento cuidadoso de uma série de textos escritos e publicados ao longo de certo tempo, como já fiz aqui mesmo com minhas colunas do Rascunho, algumas vezes; e todos/as os/as meus/minhas colegas cronistas fizeram e fazem, quando dá, se tiverem oportunidade. (Obrigada, editoras!)
Conseguir um espaço onde escoar uma produção de crônicas consistente e regular não é fácil. Depois disso, mais difícil ainda é conseguir uma editora que diga sim a um livro de… crônicas. O que se obtém como resposta, geralmente, é não vende, nos casos mais honestos e serenos. Já ouvi um nem pensar!, assim, mais horrorizado. Deve haver resposta mais atacada, suspeito. Sem falar nas conversas de bastidor às quais autores e autoras não têm acesso, para seu bem.
Nos últimos tempos, li livros de crônicas de colegas mais experientes e de alguns que empatam comigo na trajetória literária. O que percebi, assim que toquei as capas, foi que não raro são volumes publicados com direcionamento a políticas públicas de compras de livros para as escolas públicas brasileiras. Não sei se as editoras, sobretudo as maiores, poriam no mundo aqueles títulos, mesmo que sejam ótimos, se não fosse isso. Inclusive porque, além de serem compostos de um gênero ainda lido na escola e cabíveis em materiais didáticos, tratam de temas hoje muito curriculares. É isso. No mais, a crônica sofre, circula daquele jeito volante que conhecemos, mas se presta pouco a um suporte mais durável. É tratada como uma prima muito pobre de outros gêneros literários, esses, sim, disputados a tapa pelas curadorias nos departamentos editoriais.
A sala de aula, para nossa sorte e nosso alento, ainda simpatiza com a crônica, embora possa estar parada no tempo e em meia dúzia de autores (quase nunca autoras). Isso também me deixa temporariamente infeliz. Os livros didáticos ainda selecionam crônicas para trabalhar alguma coisa de leitura e outro tanto de gramática; buscam autores consagrados para dar leveza ao material; adaptam textos já breves ao comando escasseante de abordagens que possam ser feitas em 50 minutos. Pronto, tá visto. Vejo, aqui e ali, crônicas que abrem capítulos, protagonizam seções, são usadas para discutir isto ou aquilo, provocadoras de redações. Que alívio! Ainda estamos aqui. Mas se não fosse isso…
E o que tem a ver a crônica com os livros de Gornick e Morábito? É que os comprei como livros de ensaios, esse gênero altivo, chique e com aquele pezinho nas universidades. Curiosa das pertenças editoriais, conferi que Uma mulher singular foi catalogado como “memórias” e é vendido, no texto de orelha, como uma “colagem narrativa”, enquanto a quarta capa o distribui como “mapa fascinante e comovente de ritmos, encontros casuais e amizades em constante mudança que compõem a vida na cidade, neste caso, Nova York”. Noutra parte, diz-se que “intercala anedotas pessoais e meditações sobre a amizade (…)”. E é tudo isso mesmo, mas também é, que as editoras não nos ouçam, um livro de crônicas. Um livro que nos leva a passear, flanando com a narradora e seu amigo Leonard pelas avenidas de NY, comentando tudo, divertindo-nos com histórias breves e diálogos deliciosos. Mas é um livro que, no Brasil, poderia ser de crônicas, e, afinal, não é porque nenhum editor safo é bobo.
O idioma materno me deu impressão igual. Comprei como uma coleção de ensaios, de novo, e a catalogação me informa: “contos”. Mas de contos ele não é, de maneira alguma. A orelha o vende como “relatos breves”, “arte do tempo”, inclusive revelando que sua origem são as páginas de um jornal, o El Clarín. Mesmo que ninguém dissesse, os flagrantes textos do mesmo tamanho expõem para qualquer leitor ou leitora experiente que se trata de uma série mais ou menos controlada, padronizada. O autor do texto de orelha, o professor e escritor carioca Felipe Charbel, lança a dúvida: “Cada pequeno conto (seriam ensaios em miniatura?) (…)”, o que quase nos convence, mas não por muito tempo. A leitura dos textos de Morábito em pouco tempo denuncia: são crônicas, eram crônicas, mas não podem ser vendidas no Brasil assim tão desavergonhadamente. Brasil, meu Brasil brasileiro.
Aprendo muito nos e com os livros. E não só com seus conteúdos organizados em capítulos, eventualmente. Aprendo com suas existências, sua edição, as escolhas feitas pelos e pelas colegas editores. Aprendo como funcionamos e como tentamos escapar das nossas esquisitices para sobreviver. O problema é que é muito mais complicado para um autor brasileiro ou uma autora brasileira dizer que sua coletânea de crônicas é de ensaios ou de contos. Isso seria logo um flagra! Quando vem de fora…, bem, isso já sabemos também… E viva a crônica, meramente crônica.