Falsas equivalências

Um soco infantil e a reação da escola reaparecem quinze anos depois como imagem para refletir sobre omissões, violência e o perigo das falsas equivalências
Ilustração: Eduardo Mussi
02/10/2026

Quando meu filho tinha quatro anos, um colega de turma lhe deu um soco no olho.

Na véspera do Carnaval, a escola organizou um baile para os alunos da educação infantil. Meu filho foi fantasiado de Mario Bros, um dos seus ídolos durante a primeira infância. Lembro bem daquele mini Mario de macacão azul, camiseta e quepe vermelhos e um bigode retorcido, maior que ele, grudado embaixo do nariz. Levou confete e serpentina na mochila, como orientava a circular enviada aos pais, e, num determinado momento do tal bailinho, jogou confete para o alto.

Um colega de turma, ou seja, um menino de quatro anos, teria se sentido agredido porque caiu confete no seu olho e não teve dúvida. Partiu para cima do Mario Bros de aproximadamente um metro de altura e lhe deu um soco no olho esquerdo. Meu filho voltou para casa sem o bigode e com um olho roxo.

Em torno das cinco da tarde daquela sexta-feira, em frente ao computador, concentrada em liquidar as tarefas antes do feriado, vi o nome da escola na tela do celular. A professora, bastante nervosa, ligava da enfermaria contando o episódio. Custei a assimilar o que ela me reportava. Talvez porque não faça sentido que um menino de quatro anos leve um soco de um colega da mesma idade num baile de Carnaval escolar. O que ela me descrevia era inconcebível.

Surpreendida com o ocorrido, perdi a cabeça ao perceber que ela entendia a gravidade e o despropósito do que havia acontecido, mas seguia uma espécie de protocolo pedagógico, tentando emplacar a tese de que o socador, coitadinho, se sentira agredido por um confete no olho e, por essa razão, tinha partido para cima do mini Mario em legítima defesa.

Logo depois do feriado, marquei uma reunião com a professora e com a coordenadora da educação infantil. Passado o calor do momento, imaginei que a postura da escola pudesse ser outra. Reconheceriam que a reação do pequeno agressor havia sido desproporcional, era inaceitável e me diriam já ter entrado em contato com os pais da criança para a necessária orientação. Para meu espanto, a escola seguia firme, agarrada à narrativa falaciosa de que um confete no olho por obra do acaso era equiparável a um soco na cara com intenção de soco na cara. Indignada, perguntei que linha pedagógica era aquela que as impedia de agir corretamente diante de eventos como esse, qual seria a mensagem que a escola transmitiria às crianças ao normalizar e justificar comportamentos violentos como aquele.

Lá se vão quinze anos.

Dentro do avião, voltando de São Paulo na semana passada, essa história me veio à cabeça enquanto lia o jornal esperando a decolagem. Segui com a leitura pelo celular, alternando com o feed do Instagram e, como tem acontecido de um mês para cá, fui tomada por uma revolta profunda com o desserviço que parte considerável do jornalismo dos grandes veículos vem prestando a todos nós.

Às vésperas de uma eleição presidencial determinante como a que teremos no próximo domingo, 4 de outubro, grande parte da imprensa trata Lula e Flávio Bolsonaro como candidatos equiparáveis, passíveis de comparação, sem que os dois candidatos sejam retratados com a precisão e a imparcialidade esperadas do jornalismo profissional.

O que leva profissionais da imprensa a se prestarem a esse papel? Como se explica a adoção dessa linha editorial nesse momento? Será que não são capazes de enxergar a gravidade do que está em jogo? Não levam a sério o dever de informar de forma isenta e objetiva? Ou são todos bolsonaristas alucinados, partidários da barbárie e, assim como o ministro André Mendonça, advogam para o candidato que defende a tortura, miliciano, golpista, mitômano e que dará continuidade a um governo responsável, entre outras atrocidades, pela morte de cerca de setecentas mil pessoas durante a pandemia de covid-19?

Coloco o celular no modo avião. Durante a decolagem, relembro a história do confete que provocou o soco no olho, a omissão da escola ancorada numa falácia. Uma espécie de fábula bastante didática sobre falsas equivalências.

Clarisse Escorel

É carioca, formada em Direito pela UERJ e mestre em Direito Internacional pela USP. Atuou na área de propriedade intelectual e direitos autorais e, desde 2019, vem se dedicando à literatura. Seu primeiro livro, Depois da chuva (crônicas), foi publicado em 2023 pela Ouro sobre Azul. Em 2024, publicou a plaquete Diamantes (Mapa Lab). Em 2026, estreou como romancista com O amor na sala escura (Bazar do Tempo). Desde março de 2025, é cronista do Rascunho.

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