Ideias migratórias

Ideias, personagens e histórias mudam de lugar, atravessam gêneros e descobrem novas formas de existir quando a própria escrita pede passagem
Ilustração: Kleverson Mariano
04/10/2026

Outro dia, em um evento sobre Clarice Lispector, havia uma reflexão na mesa de debates sobre os pedaços nômades em sua obra. Era comum na estética da autora a migração de pedaços de texto, e o que nascia no ambiente da crônica depois surgia em um romance e vice-versa. Pensei no tanto que as ideias podem migrar de um gênero a outro, e isso é ótimo.

Foi assim com um dos meus personagens, o pinguim Oswaldo. Ele nasceu dentro de um conto fantástico. Era outra atmosfera, outro território, outro leitor. Durante algum tempo, permaneceu ligado àquela história enquanto eu escrevia o texto. Até que começou a se deslocar.

Curiosamente, migrar já estava em sua natureza ficcional. Oswaldo também precisaria partir. Seu país de origem, nas geleiras, havia sido destruído; não tinha lugar onde pudesse continuar vivendo. Era preciso atravessar fronteiras, chegar a uma terra desconhecida e descobrir o que fazer quando o lugar que chamávamos de nosso deixa de existir. Na história, Oswaldo viaja para o Rio de Janeiro. No gênero, ele migrou de um conto fantástico para uma história infantil.

Enquanto o personagem procurava uma nova casa, a própria história fazia o mesmo. Não sei dizer exatamente quando percebi que havia ali um livro infantil. Talvez porque escrever seja também aprender a escutar quando uma história pede mudança. O escritor imagina que conduz seus personagens, mas há momentos em que acontece o contrário. Eles sabem antes de nós para onde querem ir.

Gosto de pensar que as ideias circulam entre os textos, atravessam gêneros, abandonam projetos, reaparecem anos depois em outro contexto… Uma frase que não serviu para um romance pode abrir uma crônica. Uma lembrança guardada para um conto pode acabar em um livro infantil. Um personagem secundário pode bater à porta outra vez exigindo uma história só para ele.

Oswaldo quis existir em um ambiente colorido para os leitores que vão mudar o mundo.

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira e Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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