Ceticismo do inteligível (3)

A partir de Fernando Pessoa, tradução surge como tentativa sempre imperfeita de transmitir o íntimo
O poeta Fernando Pessoa
01/06/2026

A questão da tradução naturalmente assombra o texto do pessoano Livro do desassossego. Trata-se de algo que surge mesclado às reflexões sobre escritura, literatura e comunicação, mas que apresenta matizes específicos.

Em certa passagem, Fernando Pessoa, via seu semi-heterônimo Bernardo Soares, resume um dos problemas centrais da tradução em geral, mas que ocupa especialmente o tradutor literário: “Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que sinto, que ele, lendo-as, sinta exatamente o que eu senti”.

Parece haver aqui certa suspensão do princípio do “ceticismo do inteligível” que inflama o espírito do livro. Impressão que pode ser apenas superficial. É o que se percebe logo na frase seguinte, que atesta a contradição e ressalta a dificuldade em torno de toda tradução: “E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti”.

É essa “perversão” que amaldiçoa o ato tradutório e o faz parecer impossível e inútil, ainda que paradoxalmente imprescindível, como de fato forma única de comunicação. Chega-se a uma espécie de vulgarização, de homogeneização, de pastiche que achata os significados no curso do individual ao coletivo. A conclusão é clara e dura: a transmissão que se almejava não se alcança, pelo menos não em sua inteireza e em toda a sua rica complexidade singular.

Em outro trecho do diário de Bernardo Soares, o poeta português aponta o caráter inversamente proporcional da relação entre a profundidade e intimidade do sentimento e sua inteligibilidade: “Se vou traduzir esta emoção [uma tristeza vaga da vida, uma angústia de mim que me perturba e inquieta] por frases que de perto a cinjam, quanto mais de perto a cinjo, mas a dou como propriamente minha, menos, portanto, a comunico a outros”. Trata-se aqui, também, da dificuldade de transmitir e fazer compreender o abstrato, “porque é difícil de conseguir para ele a atenção de quem o leia”.

O raciocínio continua em outro trecho do diário, seguindo agora linhas ligeiramente distintas, mas com um mesmo objetivo: “… nada pode traduzir exatamente o que alguém sente. Mas de algum modo tento dar a impressão do que sinto, mistura de várias espécies de eu e da rua alheia, que, porque a vejo, também, de um modo íntimo que não sei analisar, me pertence, faz parte de mim”.

Essa tradução interna, do indivíduo tentando expressar suas próprias percepções íntimas para um público amplo, encontra paralelo — e, de fato, sequência — em fase seguinte da transmissão: a versão de um texto literário para outra língua, outra era, outra cultura. É enorme o salto que se dá do sentimento íntimo à transposição de sua expressão literária em outro contexto espaciotemporal. É também enorme a possibilidade de distorções de todo tipo entre os dois extremos. O ceticismo do inteligível se aplica aqui com toda a força e propriedade.

Uma solução possível de tradução é proposta pelo próprio Pessoa, na modalidade da transmissão, de algum modo, de uma “impressão”. É o que parece restar dessa rápida, mas transformadora, passagem do íntimo ao público. Não existe fórmula perfeita nem definitiva. Tradução é movimento, processo contínuo, tentativa e erro. Processo de que faz parte também esse olhar singular que tem cada um — e talvez com mais propriedade e diferenciação, o poeta —, olhar esse que, por ser único, transforma cada tradução em novo original.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

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