Reflexões (e reflexos) de um brasileiro genérico

O cronista é confundido o tempo todo com outras pessoas; a graça é pensar que, com tantos duplos, essa é mais uma forma de não estar sozinho no mundo
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03/04/2021

Há assuntos mais sérios para serem tratados num momento em que a humanidade passa por uma crise, esta sim, seriíssima. Mas peço licença, com a prerrogativa de cronista distraído, para falar de outro tópico. Sem a culpa, claro, ou a suspeita de alienação ou escapismo para um momento tão dramático, porém com o entendimento de que o drama e o cômico estão avizinhados: o destino da lágrima é a quase sempre o canto da boca, onde pode morar pelo menos um risinho. Desse modo é que, cedo ou tarde, deveria abordar a questão: por que diabos em todo lugar me confundem com outra pessoa?

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Creio que quase todos os indivíduos já passaram pela situação. O engano é comum, nossos cérebros de percepções geralmente limitadas buscam associações por semelhanças. Somos conduzidos o tempo inteiro por links randômicos, associações escorregadiças, sinapses confusas ou pelo menos carregadas de chutômetros.

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O primeiro caso de que me lembro foi na adolescência, trabalhando no McDonald’s, quando colocaram no mural da sala dos funcionários a capa de um jornal popular, cuja manchete trazia a prisão de um bandido com a minha cara. O gaiato nem precisava escrever “Rodrigues”, como eu era chamado, com uma seta apontando para o sujeito de bigodinho do tabloide.

Naturalmente, quem fez isso foi uma pessoa muito amiga, porque isso é o que amigos fazem.

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Na lanchonete da faculdade, levei um tapa forte nas costas quando o sujeito acreditava por A + B que, entre curta e média distâncias, eu era o amigo íntimo dele. Se bem me lembro, o graduando era de Educação Física, algo só revelado face a minha pouca resistência ao cumprimento bruto: eu, magricela de Letras, estava mais pra Educação Tísica, de maneira que por muito pouco não devolvi o minicombo de salgado + refri.

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Ainda na faculdade, por duas vezes me perguntaram se eu era filho do professor Muniz Sodré. O interessante é que ele, realmente, se parece com um tio já falecido.

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Já nos EUA, fazendo intercâmbio pelo mestrado em 2001, calhou de acontecerem os atentados às Torres Gêmeas e eu usar um cavanhaque. Como parecesse árabe, começaram a me olhar feio nas ruas quando se descobriu sobre o Bin Laden. Para não levar uma sova dos gringos, tirei o cavanhaque, automaticamente ficando com cara de mexicano. Eis que tão logo umas pessoas vinham falar comigo iniciando com o vocativo “Ramon”, e outros disseram que quando iam falar comigo só bem perto sacavam que era só mais um doppleganger.

Houve um pequeno esforço do pessoal para me reunir com o Ramon, revelando-se, de fato, minha versão uns 5 anos mais novo. Não houve uma abertura no tempo-espaço engolindo todo o planeta. Na verdade, ficamos sem assunto rápido, talvez por redundância.

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Na fila para entrar numa das mesas da Flip, estava atrás do cronista Humberto Werneck. Ao me ver, se virou rapidamente e perguntou: “Você não é o Ludovico?”. Não tenho certeza se era esse o nome, mas algo do gênero certamente. Só um grande cronista para não só conhecer um Ludovico, mas também não ter certeza de como ele é.

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Há não muito tempo, fui acompanhar um evento cultural em Arcoverde, Pernambuco. Os debates aconteceram no teatro Geraldo Barros, e não demorou um intervalo para café até que dissessem que eu era a nova encarnação do dramaturgo. Na dúvida, tirei a foto que estampa esta crônica e não sei de onde tiram esse tipo de ideia.

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E já que estou no Nordeste, pulo para o Ceará. O poeta Mailson Furtado venceu o Prêmio Jabuti com o livro À cidade, não só na categoria Poesia como também de Livro do Ano. E bastou eu replicar a notícia nas redes sociais, com a foto do escritor erguendo as duas estatuetas, para receber uma infinidade de parabéns de pessoas que só olhavam a foto.

Creio que por ser profissional de saúde, o escritor recebeu sua primeira dose contra o coronavírus por esses dias, pois recebi foto de um amigo sacana com a legenda: “No CE você já foi vacinado”.

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E como não me lembrar da Bahia que eu tanto amo? Ao entrar numa loja de roupas do Pelourinho, o atendente me perguntou naturalmente como andava o pessoal do batalhão lá de cima. Já acostumado ao meu fenótipo genérico causador da confusão, respondi de pronto que estavam todos bem, tocando a vida. O sotaque carioca denunciou que eu não era o policial baiano. Mas perece que o comerciário não acreditou tanto, pois conferiu para não ter dúvida: “Mas veja, não é nem parente não?”.

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A crônica se estenderia, amigos. Dia desses, minha companheira me mandou uma foto perguntando o que eu estava fazendo lendo jornal num banco de galeria aqui perto, o que me confundiu por uns segundos até notar que ela estava me trollando. Já me disseram que um dia vai acontecer aquele concurso de sósias, como fazem sobre o Ernerst Hemingway, na Flórida.

Essa estranha alteridade, causada por eu ser um típico pardo brasileiro, não faz parecer que vivo numa versão tupiniquim bizarra do filme Quero ser John Malkovich. A graça da coisa é pensar que, tendo tantos duplos, essa é mais uma forma de não estar sozinho no mundo.

Henrique Rodrigues

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e trabalha na gestão de projetos de incentivo à leitura. É autor de 15 livros, entre romance, poesia, infantis e juvenis. Site: www.henriquerodrigues.net.

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