Olá, Flannery

Um passeio pelo bosque leva de encontro a uma avó, três crianças e um pastor a bradar por um Deus na solidão
Ilustração: Oliver Quinto
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31/07/2021

Ao menos uma vez por semana, se podemos estar prontos até as quatro da tarde, se o frio é um frio com sol, sem muitas nuvens ou vento, se não há outra urgência, vamos nós três, bichos da Aclimação bem aclimatados, pai, mãe e filha, para o nosso necessário banho de bosque. Nossa trilha passa por uma clareira, antes de subir para o verde limão da luz nas copas das árvores. Não é raro encontrarmos uns vultos ao pé dos jequitibás, de gente tão necessitada de bosque quanto nós.

Mas na semana antepassada qualquer coisa arrepiante e estranhamente familiar aconteceu. Havia na clareira três meninas acompanhadas a uma certa distância pela avó. Estavam entretidas remexendo no chão de folhas secas e vermelhas, numa cena que seria graciosamente bucólica, não fosse o som de fundo, de um homem pregando aos brados para uma assistência invisível. “Porque esse Deus, meu querido, esse Deus não abandona!” Magro e barbado, de paletó e gravata, no fundo da clareira, o homem se inflamava, indo e vindo entre dois tocos de tronco, enchendo o ar onde estávamos, gritando para o bosque com aquela atrevida intimidade.

Olhei nos olhos da avó, tentando sorrir, talvez ela pudesse me ajudar a sair daquele conto de Flannery O’Connor. Mas a avó parecia mesmo era ter parte com Flannery e não sorriu de volta, as três crianças repescando entre as folhas e os brados do pastor, “meu querido, vou te contar desse Deus!”. Fomos subindo pela trilha e os gritos do homem conosco, até certo ponto, quando o verde falou mais alto nas folhas e começamos a procurar borboletas. Quase me esqueço da cena perigosa, quase me livro do arrepio, mas disfarçadamente atenta, para o caso de ouvir, depois do silêncio, uma risada. Atenta a passos no crepitar das folhas secas. Atenta.

Deixamos o bosque com o último sol da tarde rebrilhando estrelado no lago do parque. Seguimos pela rampa, como fazemos sempre, desembocando num dos recantos favoritos dos gatos. E lá estava a avó, cercada das três crianças. Passamos por ela e seu rosto de novo impassível. Se é que um rosto pode nos murmurar alguma coisa, o que escuto é que podemos passar pelo parágrafo sinistro sem grandes danos, mas não, ainda não saímos de dentro do conto. Fugir pra quê? Olá, Flannery O’Connor.

Mariana Ianelli

Nasceu em São Paulo em 1979. Formada em jornalismo, mestre em literatura e crítica literária, estreou na poesia em 1999 com Trajetória de antes. Em 2013, estreou na crônica com Breves anotações sobre um tigre. É também autora de dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no Rascunho. Escreve quinzenalmente, aos sábados, na revista digital de crônicas Rubem.

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