As mentirinhas que os escritores contam

Algumas divertidas contradições entre a teoria e a prática na chamada vida (às vezes mesquinha) literária brasileira
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24/07/2021

Sim, escritores mentem o tempo todo, especialmente os ficcionistas. É claro que não podemos nos esquecer da redondilha maior “o poeta é um fingidor”, em que Fernando Pessoa entregou que os versejadores, há séculos se apresentando como pessoas de coração aberto na pura sinceridade do pensar e do sentir, também inventam.

Muitos leitores adoram buscar uma suposta verdade na literatura. O personagem do meu romance O próximo da fila, que trabalha num fast-food, queima as mãos na chapa num acidente horrível (opa, spoiler!). Como eu trabalhei no McDonald’s na adolescência, o pessoal vem procurar cicatrizes inexistentes nas minhas duas palmas, como se fosse para afirmar uma evidência de autoficção, algo que não fiz. As mãos estão bem aqui, apenas com os naturais calos da vida.

Mas em geral o leitor entra num livro como quem vai ao Maracanã, para assistir ou participar de uma partida de futebol. Deixa o mundo ordinário do lado de fora para se concentrar na bola rolando e respeitando, quase sempre, as regras do jogo. O poeta Samuel Coleridge, inglês do século 18, já apontou na sua “suspensão da descrença” esse acordo tácito no fenômeno maravilhoso da leitura. Se um personagem começa a voar e isso está de acordo com a história (a chamada verossimilhança), só um tremendo mala iria parar para dizer “isso não existe, gente não voa, que livro ruim”.

Nessas duas décadas circulando entre a turma das letras, os escribas começaram a aparecer mais e sair da toca. Se antes davam apenas a cara a tapa – que para mim significa publicar um livro –, nesse período começaram a mostrar literalmente a cara em eventos e nas redes sociais. Alguns são até escritores que só existem no mundo online, publicando textos apenas em versão eletrônica ou em posts.

No meio disso tudo, uma galera acaba criando um tipo de persona, seja polemizando continuamente ou tacando posições sobre quaisquer assuntos que garantam clicadas e, talvez, uns leitores. Daí me lembro de uns exemplos no mínimo contraditórios acerca do próprio meio literário. Eis umas declarações de antes e depois que colecionei, ou mesmo de teoria e prática que não batem:

  • Não vou me vender para o mercado, sou artista! >>> Alguém compra meu livro pra me ajudar!
  • Editoras grandes são o grande inimigo da literatura! >>> Realização de um sonho: meu livro vai sair por essa Editora Grande!
  • Eu não importo com o leitor, ele que se lasque! >>> Olha esse print que recebi de uma leitora. Incrível!
  • Eu odeio a Flip com todas as forças! >>> Gente, gente, vou participar da Flip! Apareçam no horário X na Casa Y!
  • Estou sempre relendo Joyce e Proust. >>> A pilha tá enorme aqui, não dá pra ler nada e acabo na Netflix. #prontofalei
  • Adoro poesia. Minha prosa é toda calcada em versos que me reescrevem. >>> Não, eu não gosto de poesia, sai pra lá!
  • Não me importo com crítica literária. >>> Ahhhh, me ajudem a cancelar o crítico desgraçado que fez essa resenha negativa do meu livro?
  • Prêmio literário é tudo carta marcada, não levo a sério nem preciso. >>> Feliz aqui porque minha inscrição no Prêmio Kerokero de Literatura foi aceita! Estou no páreo!
  • Oficina literária não serve para nada. >>> Adivinha quem é o novo convidado para dar uma oficina?
  • Não escrevo por encomenda! >>> Olha o print: recebi convite aqui para participar de uma antologia de contos sobre cervejas artesanais. Pensa numa pessoa feliz!

Henrique Rodrigues

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e trabalha na gestão de projetos de incentivo à leitura. É autor de 15 livros, entre romance, poesia, infantis e juvenis. Site: www.henriquerodrigues.net.

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