Algo de asa

A partir de Jane Birkin e Byung-Chul Han, a presença dos anjos ganha corpo em imagens de delicadeza, mistério e assombro
Ilustração: Mariana Ianelli
06/06/2026

Em 2002, no final do show Arabesque, no Ódeon-Théâtre de Paris, Jane Birkin se esmerou numa longa lista de agradecimentos. No meio da canção Comment te dire adieu, agradeceu aos colegas músicos, técnicos, amigos, uma multidão de nomes queridos. Então, a certa altura, ela diz: “E eu gostaria de agradecer a um anjo. Porque penso que tenho um anjo da guarda e ele se chama Gabriel. É graças a ele que tudo isso foi possível. Obrigada, anjo Gabriel!”.

Também o filósofo Byung-Chul Han, numa conferência recente, em Lisboa, em 2023, em certo momento da sua fala, segredou aos ouvintes: “O anjo que me acompanha está aqui. Ele está bem aqui. Tenho um anjo que me protege. Caso contrário, eu me desfaria. Mas deixarei este tema de lado, para continuar com minha conferência”. Pena Byung-Chul Han não ter se demorado no anjo, embora sua fala tratasse da esperança e nela mesma portasse algo de asa.

Pessoalmente, raras vezes me fixei em anjos. Constrangem-me ainda hoje aqueles pequeninos e rechonchudos, ditos anjinhos, como também chamavam antigamente às crianças mortas. Mas há os anjos de Wim Wenders, que são de outra ordem. Os anjos translúcidos ou nublados de Gustave Doré. Aquele assombro de asas portentosas. Anjos invisivelmente monumentais na noite escura, em campos de guerra, nos desertos, em poemas vários. Anjos à paisana entre gente anônima, nas cidades.

Uma vez alguém me contou que foi atingido por um anjo. Não com essas palavras, que poderiam soar ridículas dependendo de quem contasse. O testemunho era sincero, quase sussurrado. Uma asa se interpôs no seu caminho, foi o que alguém me disse. No meio do caminho, tinha uma asa gigantesca, que não era asa de pássaro. A maneira camuflada de dizer, essa contenção do assombro, isso sim me impressionou. Uma asa gigantesca, que não era asa de pássaro, rasgando o ar da tarde. Passei a reparar, aqui e ali. Passei a reparar em toda parte. Agora sei que toda atenção é pouca. Nada nos previne de um golpe de asa.

Mariana Ianelli

Nasceu em São Paulo em 1979. Formada em jornalismo, mestre em literatura e crítica literária, estreou na poesia em 1999 com Trajetória de antes. Em 2013, estreou na crônica com Breves anotações sobre um tigre. É também autora de dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no Rascunho. Escreve quinzenalmente, aos sábados, na revista digital de crônicas Rubem.

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