O suor de Deus

Em Kazantzákis, pensar, dançar e lutar são modos de enfrentar a liberdade, o fracasso e um Deus que também parece condenado a trabalhar
Nikos Kazantzákis, autor de “Zorba, o grego”
07/10/2026

Nikos Kazantzákis desconfiava de qualquer filosofia que pudesse ser praticada numa poltrona. Em seus livros, até as ideias precisam suar.

Deus sua. A liberdade transpira. O espírito se ensopa. E, quando já não se sabe o que fazer, alguém dança.

Em Ascese, seu livro mais filosófico, até Deus trabalha. Não é pouca coisa.

O Deus de Kazantzákis não administra a criação de algum escritório celestial, com o universo já entregue e funcionando dentro do prazo. Está ainda em construção. Luta para subir através da matéria, dos animais, dos homens. E nós, pobres funcionários dessa obra sem engenheiro responsável, temos a obrigação de ajudá-lo.

É uma teologia curiosa: em vez de Deus salvar o homem, o homem dá uma força a Deus. E não há promessa de pagamento.

Talvez a frase mais famosa de Kazantzákis — “Não espero nada, não temo nada, sou livre” — seja, nesse sentido, menos uma declaração de independência do que uma rescisão de contrato. Ele renuncia a recompensa, proteção e garantia. Fica apenas com a tarefa.

Zorba acharia tudo isso excessivamente escrito.

Em Zorba, o grego, Kazantzákis inventou um homem capaz de resolver boa parte dos problemas da filosofia comendo, bebendo ou dançando. Diante dele está o narrador: intelectual, leitor, homem que passou tanto tempo tentando entender a vida que quase perdeu a oportunidade de vivê-la.

Zorba não pensa menos que ninguém. Pensa com o corpo. É uma distinção importante.

Quando tudo fracassa (em Kazantzákis, as coisas têm certa inclinação para o fracasso), Zorba dança. Não porque ignore a tragédia. Dança porque a conhece. O otimista acredita que tudo dará certo. Zorba sabe que não dará e pede música assim mesmo.

Já em O capitão Mihális, a dança vira guerra.

Mihális quer libertar Creta do domínio otomano, mas Kazantzákis estica a ideia de liberdade até torná-la quase insuportável. O capitão luta contra um império, contra os compromissos da honra, contra o desejo e, principalmente, contra Mihális. É mais fácil expulsar um exército.

Mihális talvez seja o personagem que melhor revela o perigo da liberdade absoluta. Há qualquer coisa de magnífico nele, mas também de terrível. Sua recusa em ceder produz coragem e brutalidade com a mesma facilidade. Kazantzákis não resolve a contradição. Apenas a coloca diante de nós, armada.

Entre Ascese, Zorba e O capitão Mihális, reaparece o mesmo homem sob três disfarces: aquele que tenta não se ajoelhar diante do inevitável. Um pensa. Outro dança. O terceiro luta.

Kazantzákis devia suspeitar que nenhum dos três métodos funcionava perfeitamente. Mas ficar parado era muito pior.

Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

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