As palavras perdidas

Como é bom ler livros de cartas. Parece que nos lembramos de uma época em que a comunicação era mais valorizada, especialmente por demorar
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A semana se comprime no período em que estamos entre o sobre e o vivendo. O boitempo do Drummond, lentamente, muge e rumina o nada num Brasil em chamas.

Quase todos os dias reencontramos alguém para resolver alguma coisa on-line, que nos pergunta depois do assunto inicial e motivador do contato: “E de resto, como estão as coisas?”. Minha resposta tem sido “na correria imóvel de sempre”.

E se, de certo modo, já não era assim antes?

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Como é bom ler livros de cartas. Parece que nos lembramos de uma época em que a comunicação era mais valorizada, especialmente por demorar. Um dos livros de que mais gostei sobre o assunto foi o Cartas perto do coração, que reúne missivas trocadas entre Clarice e Sabino.

Li há muitos anos e ficou gravada uma frase, não me lembro de qual dos dois: “Vomitar o que, se não comemos?”. De vez em quando uso em palestras com sentidos sempre diferentes. Regurgito ainda a frase.

Emprestei o livro para uma amiga, que nunca mais o devolveu, como acontece sempre com obras com as quais nos empolgamos. Espero que ela tenha emprestado para outrem, e daí por diante.

Por isso, fiquei feliz ao receber o volume com todas as cartas de Clarice.

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Abro o livro em qualquer página, como quem vai à Bíblia em busca de um conselho. Por coincidência caiu numa carta para Sabino, onde foquei na frase: “Não trabalho mais, Fernando. Passo os dias tentando enganar minha angústia e procurando não fazer horror a mim mesma”.

Sim, parece que Clarice está produzindo ainda. Como os grandes clássicos, ela escreve sobre o nosso mundo de hoje, para mim agora. O trecho parece versar tanto sobre nosso 2020 que arrepio. Sim, ela escreve para você aí.

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Parte desse apavoramento diante da existência tenta ser compensado na fruição possível. Hoje uma assessora de imprensa, buscando insumos (termo dela, que podia ter usado “opinião”) para vender uma pauta, me perguntou se as pessoas estão lendo mais na quarentena. Me parece que não, penso que proporcionalmente a literatura continua perdendo para as outras formas de apresentação de narrativa: filmes, séries, games, vídeos de celebridades divulgando produtos.

Nada muito diferente do que antes.

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Se as pessoas estão escrevendo mais? É claro, estão sempre batucando um teclado, mas e? Se as postagens nas redes sociais fossem feitas a máquina de escrever, talvez o nível de ódio fosse menor. É provável que exista uma oficina de escrita criativa em que só se pode escrever a máquina. Ao pensar um pouco mais antes de datilografar, o indivíduo pode medir um pouco mais sua semântica.

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Nessa onda nostálgica, um escritor disse que sente saudade das videolocadoras. No universo de coisas ruins entopem os olhos, é difícil hoje escolher algo que dê satisfação semelhante ao que era escolher uma fita naquelas estantes grandes e esperar até chegar em casa. Às vezes não é só o texto, é também o que vem antes e depois.

Trabalhei numa locadora por seis anos nos anos 1990. Que sensação boa era selecionar as narrativas onde centenas de pessoas iriam imergir por um tempo. Já estou aqui, rebobinando a memória.

O melhor emprego que já tive. Aquele no qual, pelo menos, fui mais feliz.

Henrique Rodrigues

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e trabalha na gestão de projetos de incentivo à leitura. É autor de 15 livros, entre romance, poesia, infantis e juvenis. Site: www.henriquerodrigues.net.

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