No final dos anos 1990, eu morava na Europa por motivos mais pessoais do que acadêmicos. Trabalhava como jornalista, fazia reportagens, entrevistas, corria atrás de pautas e de freelancers. Soube que a escritora Amélie Nothomb estaria em Bruxelas, cidade onde ela nasceu. Naquela época, eu já conhecia seu trabalho. Ela começava a carreira, ainda nem de longe era o que veio a se transformar, com dezenas de livros publicados. Propus uma entrevista. Ela aceitou. Não me lembro exatamente como consegui uma aceitação tão imediata, mas o fato é que lá estava eu em Bruxelas para entrevistar Amélie.
A entrevista aconteceu no quarto do hotel onde ela estava. Ela me recebeu vestida toda de preto e com um chapéu enorme, também preto, uma espécie de cartola. Uma presença teatral, mas muito gentil. Saí de lá cerca de uma hora depois com um exemplar do livro que levei autografado — Les combustibles — e uma entrevista ótima.
Eu nem sonhava ainda que um dia poderia me tornar escritora. O tempo passou, o sonho de escrever ficção aconteceu, e o tempo, algum talento e persistência fizeram o resto. Recentemente, ao assistir ao desenho animado A pequena Amélie, inspirado em um dos livros biográficos da autora, que passou uma parte significativa da infância no Japão, imaginei que o fato de eu ter conhecido uma escritora cuja obra foi inspiração para um filme tão lindo é algo sublime na minha biografia.
Enquanto as imagens passavam na tela, pensei naquela tarde em Bruxelas. Imaginei como seria um reencontro hoje. Eu me transformei em uma grande leitora de quase tudo o que ela produziu, abandonei o jornalismo e me tornei uma escritora “de verdade”. Talvez eu desse de presente para Amélie um dos meus livros, mesmo em português…
Em uma das frases finais do filme, que é na verdade um desenho animado, a autora menina diz que “irá escrever por toda a vida dela” ou “toda a sua vida”, depende da forma como se interpreta a fala original. Amélie Nothomb faz ambos: não só escreve sem parar desde que começou um livro após o outro, como, de fato, escreve a sua vida, já que grande parte de suas andanças pelo mundo (filha de pai diplomata) está nos seus livros.
Acho que sigo os passos desta grandiosa inspiração…