Ceticismo do inteligível (6)

No “Livro do desassossego”, Fernando Pessoa põe em dúvida os próprios fundamentos da leitura, da escrita e da tradução
Fernando Pessoa, autor de “Livro do desassossego”
01/09/2026

Fernando Pessoa revira conceitos e fustiga as instáveis bases da interpretação e da tradução em sua obra mais ousada, o Livro do desassossego. Ele mesmo tradutor profissional e, acima de tudo, tradutor de si mesmo, tinha muito a dizer sobre a matéria.

A releitura é uma forma de interpretação, segunda chance de traduzir um texto para si ou para outros. A segunda leitura será certamente diferente, senão mesmo distante da primeira. A perspectiva da releitura pode assustar, e assusta, especialmente quando o releitor é o próprio autor. Natural temer esse novo olhar, às vezes anos depois. O medo do erro, do canhestro, do datado, do ultrapassado, do ridículo. Tanta coisa mudou, e o autor pode sequer se reconhecer no velho texto.

“Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não compreendo nada…”, diz-nos o semi-heterônimo Bernardo Soares. É uma seta, um soco, um susto.

A autoavaliação crítica pessoana não é nada positiva, ainda que sempre ficcional, pois é disso que tudo se trata: “E afinal, hoje, relendo, vejo rebentar meus bonecos, sair-lhes a palha pelos rasgos, despejarem-se sem ter sido…”.

É elemento praticamente constante no texto do Desassossego o questionamento não apenas da releitura, mas da leitura e, no princípio de tudo, da escritura. A revisão amarga e cética de todo processo de criação é evidente e lacerante: “Com que vigor da alma sozinha fiz página sobre página reclusa, vivendo sílaba a sílaba a magia falsa, não do que escrevia, mas do que supunha que escrevia!”.

Soares/Pessoa ataca os alicerces da literatura e, em especial, a vaidade que assombra os lampejos mais luminosos: “Com que encantamento de bruxedo irônico me julguei poeta da minha prosa, no momento alado em que ela me nascia, mais rápida que os movimentos da pena, como um desforço falaz aos insultos da vida!”.

Não há piedade nem para si mesmo nem para ninguém. Todo texto é imperfeito e poderia ser melhorado, quem sabe mesmo na etapa — sempre pendente — da tradução. A consequência é tormento para o criador e, claro, constante angústia para o tradutor. É Bernardo Soares quem desfere: “Não há obra de artista que não pudera ter sido mais perfeita. […] Ai do artista que repara para isto! Que um dia pensa nisto! Nunca mais o seu trabalho é alegria, nem o seu sono sossego. É moço sem mocidade e envelhece descontente. E para quê exprimir? O pouco que se diz melhor fora ficar não dito”.

A eterna questão dos encontros e desencontros entre escritura, leitura e releitura — seja de um só sujeito, seja de inúmeros — é visitada e revisitada. O problema parece ter como vértice ou voragem, ainda que provisória e flutuante, a autonomia das palavras, que, depois de expressas, ganham vida própria e se alheiam de seus autores, tutores e leitores. Bernardo Soares o diz, apontando que as “palavras vadias” com que exprime suas impressões o “desertam desde que as escrevo, e erram, independentes de mim, por encostas e relvados de imagens, por áleas de conceitos, por azinhagas de confusões”.

Essa larga autossuficiência das palavras, que circulam, voam indiferentes a seus criadores ou intérpretes, oferece ao tradutor amplo campo de atuação, com aguda profundidade de interferência. Contudo, impõe ao mesmo tradutor obstáculos naturais vinculados à necessidade de múltiplas decisões de caráter discricionário, embora orientadas — na melhor das hipóteses — por convenientes elementos contextuais, conjunturais e conjecturais.

É grande a responsabilidade que se coloca nas mãos do tradutor, em sua condição de leitor e releitor privilegiado, que não só determina tendências interpretativas, mas também propõe e define rumos da própria literatura.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

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