Setembro em lapsos

Marcelo Nunes permanece na memória, nos livros e na palavra: escritor, tradutor, leitor e editor para quem literatura e vida eram inseparáveis
O escritor e editor Marcelo Nunes, autor de “Nirvana”
27/09/2026

Começo pelo fim. Não como Albert Camus que, em seu O estrangeiro, tornou célebre um início que é síntese do romance que seria conhecido como sua obra magna. “Mamãe morreu hoje. Ou ontem, talvez, não sei bem”, avisa-nos Meursault, com toda a sua frieza e indiferença características. Mas eu começo aqui pelo fim por motivos distintos. Talvez porque tenha percebido que não queria escrever o presente texto, embora um estranho senso de obrigação me impeça de renunciar a tal intento. Talvez porque eu saiba que, inerentemente, começar é terminar. Quem sabe, enunciando diretamente, tornando inscrito o fato, eu consiga torná-lo mais palatável? Claro, reconheço minha dificuldade de aceitar finitudes, e escrever é sempre também me obrigar a olhar para os abismos do incontrolável. “Fale — /Mas não separe o Não do Sim. /Dê a tua fala também o sentido: dê-lhe a sombra”, ordenou Paul Celan. Marcelo Nunes, escritor, tradutor, editor e colaborador deste jornal, morreu subitamente, em 30 de agosto, duas semanas antes de completar 60 anos. Deixou duas filhas e a esposa. Falo. Escrevo. Mas não consigo sentir alívio algum.

Sigo, então, pelo começo do fim. Quando fui, mais uma vez, obrigada a concordar com Clarice. Era a hora mais perigosa do dia; portanto, tudo se tornava mais vazio, ainda que eu soubesse e ignorasse isso. Não, não há modo melhor de existir do que se perder na própria inconsciência; mais um dia é sempre menos um também, e tal matemática nenhuma calculadora será capaz de suportar. Sisificamente, enquanto planejava minha jornada profissional que recomeçaria no dia seguinte, abri o Instagram para, de acordo com a infâmia contemporânea, passear pela vida alheia editada, ou seja, escapar de mim. A primeira imagem que surgiu, então, foi uma do Marcelo, em Paris, na frente da lendária Shakespeare and Company. Sorri. Nessa fotografia, ele carregava uma pequena placa com o nome de sua jovem editora, a Nauta.

Lembrei, no ato, de Sylvia Beach, fundadora da Shakespeare and Company original e uma das principais figuras da chamada geração perdida. Notória por ter publicado Ulisses, apostando no trabalho de Joyce, no período em que este vinha enfrentando dificuldades para encontrar um editor, Sylvia sempre foi lembrada por sua coragem e fé na literatura. Dando-me conta da paridade que se apresentava entre os dois, pensei que Marcelo, excelente leitor, tornou-se editor porque, assim como ela, também alimentava o sonho de revelar autores e permitir uma ambiência literária mais plural e sofisticada. Foram breves os instantes em que refleti sobre tudo isso, preciso ressaltar. Porque, segundos depois, decidi ler a legenda que acompanhava a imagem: “A vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”. Lógico, Clarice sempre sabe.

A matemática da finitude
Chego ao meio. Se foi pelo Instagram que tomei conhecimento da passagem do Marcelo, também é por este meio que agora busco historiar sua memorabilia literária. Tomo conhecimento de que, nos últimos tempos, ele estava concentrado em publicar a edição bilíngue da poesia completa do Stephen Crane, autor que o encantava e que faleceu aos 28 anos. Descubro que o primeiro romance que o Marcelo escreveu, Nirvana, foi sua própria tentativa de meditar sobre a morte. Publicado pela Kotter, em 2021 (em plena pandemia), o livro conta a história de Arthur Balan, jornalista e escritor de 56 anos, que recebe a notícia de que tem um câncer incurável. Confinado a um leito de hospital, ele decide, então, escrever suas memórias, enquanto também reflete sobre o suicídio da mãe e procura, na filosofia, respostas para suas perguntas mais inquietantes. Marcelo dizia que meditar sobre a morte era sua própria forma de não a temer. Em postagem de 11 de abril de 2021, citando Buda, ele defendeu que saber o que é o Nirvana não lhe parecia tão importante quanto alcançá-lo. Dois dias depois, em um comentário, constatou que Machado de Assis e Jorge Luis Borges tinham contos intitulados O imortal e que ambos, a seu modo, versaram sobre o infortúnio do homem que jamais morre.

Semanas depois, publicou uma fotografia com três pessoas usando trajes que aludem a vestes budistas. Mas o inusitado da imagem é que duas delas carregavam, nos ombros, ecobags com a palavra Nirvana estampada. A legenda que o Marcelo, tradutor experiente, atribuiu-lhe é sucinta e brutal, como era seu humor: Never mind. Coloco Smells like teen spirit. “With the lights out, it’s less dangerous.” “A vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.” “Eu sou dado ao maravilhoso, ao fantástico, ao hipersensível; nunca, por mais que quisesse, pude ter uma concepção mecânica, rígida do Universo e de nós mesmos. No último, no fim do homem e do mundo, há o mistério e eu creio nele”, escreveu Marcelo, em 23 de junho de 2021, citando O cemitério dos vivos, de Lima Barreto, livro inacabado. Para quem crê, de fato, na literatura e no mistério, a morte é apenas mais um passo.

Volto um tanto, na minha linha da memória, para falar de quando conheci o Marcelo, assim como para tentar compreender o motivo que me impele a escrever um tanto sobre sua vida. Ele era um desconhecido para mim até 28 de maio de 2022, quando me marcou em um texto que escreveu sobre o meu primeiro romance, Mundos de uma noite só. Fiquei, no ato, impressionada com o rigor e a qualidade de sua crítica. Passei a acompanhar sua produção intelectual. Tanto para o Rascunho quanto para O Estado da Arte, ele resenhou diversos livros, assim como publicou inúmeros ensaios. Nasceu, então, uma amizade virtual, em que trocávamos impressões sobre obras, escritores e mercado editorial. Apenas nos vimos uma vez, pessoalmente, em 2025, quando ele e a esposa compareceram ao lançamento do meu último trabalho. Em uma de nossas últimas conversas, falamos sobre J. M. Coetzee, autor por quem ele era apaixonado. Marcelo, que detestava Contos morais por achar os textos panfletários, estava lendo O polonês e me prometeu dizer sua opinião sincera sobre tal novela assim que a terminasse. Estranhamente, O polonês é também uma reflexão sobre a finitude da morte e a perenidade da arte.

O que não desce conosco
Termino pelo começo. Renuncio à minha covardia do início deste texto, ao compreender que morte é, sim, vazio, mas que vida se celebra pela palavra. “Fale — mas não separe o Não do Sim. Dê a tua fala também o sentido: dê-lhe a sombra.” Sobre a morte do Marcelo, seu editor, Octávio Carmo, declarou:

Permaneceste de pé perante o vento: o que deste à arte foi a escala exata da honestidade. Sempre algo mais firme do que a ideia que o mundo faz de si. Serviste a palavra sem a domesticar. As tuas escolhas não cederam, o teu rigor não se inclinou. Fizeste-o em silêncio, sem exigir espetáculo, sabendo que a beleza só existe onde há verdade. Deste proporção aos nossos versos e abrigo às palavras que procuravam chão. A tua vida foi breve, mas o que ergueste não desce contigo. Subsiste, sem ponto final. O resto é memória e silêncio.

 Palmas.

Elegante, generoso, sofisticado e gentil. Este foi o Marcelo Nunes. Escritor, tradutor, leitor e, como se orgulhava muito em destacar, editor da Nauta.

 

 

 

Renata Belmonte

É escritora e advogada. Autora de três livros de contos: Femininamente (Prêmio Braskem de Literatura, 2003), O que não pode ser (Prêmio Arte e Cultura Banco Capital, 2006) e Vestígios da Senhorita B (P55, 2009), e dos romances Mundos de uma noite só (Faria e Silva, 2020) e Piscinas russas (Tusquets, 2025).

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