Como leitor, é muito curioso ter a emoção de conhecer pessoalmente um escritor que você já admirava. Essas oportunidades surgem quando você é um livreiro que trabalha intensamente com eventos. Lembro quando trouxe pela primeira vez para Santos o Ruy Castro, quando recebi Nelson Motta, Lygia Fagundes Telles e Ignácio de Loyola Brandão. Foram dias de alta emoção, ainda mais para um jovem aprendiz como eu era. Mas a emoção vem em qualquer etapa da nossa vida. Afinal, esses personagens povoam o imaginário dos leitores — e o que dirá dos livreiros leitores?
Pois chegou o dia de conhecer o jornalista e escritor Zuenir Ventura. Isso se deu no início dos anos 2000, quando o século era um bebê. Quando li 1968, o ano que não terminou, da Nova Fronteira, foi para mim uma experiência viva, trazida pelo texto direto, claro, de um jornalista que me mostrou um Brasil que, apesar dos grandes problemas, da repressão, da ditadura e da violência, tinha brios, fibra, era o país do futuro, da bossa nova e da boemia.
Zuenir foi muito gentil. Sua esposa, mais fechada e talvez mais observadora, sua companheira de todas as horas, a Mary, sempre com o Zu, sempre atenta. Não sei bem como, mas, logo depois de um café, já sentimos que o papo fluiu. Depois vi que o Mestre Zu era craque nisso: a boa prosa, a entrevista, as técnicas do jornalismo eram exaladas por ele. Mas acho que ultrapassamos essas marcas. Senti nele um amigo instantâneo, um amigo de infância feito ali, entre livros.
Havia me casado em 2002 e, em uma das vezes que Zuenir e Mary aqui estiveram para fazermos eventos, depois do trabalho trouxemos o casal para jantar em casa. A prosa evoluía, e a amizade também. Nessa jornada, antes do jantar, passamos o dia em divulgações, levando nosso autor para programas de rádio e TV e, na sequência, fomos fazer uma apresentação com bate-papo e lançamento do genial Minhas histórias dos outros. Devia ser maio de 2005. Com a plateia lotada, eu e Zu trocamos ideias. Eu levantava a bola pra ele, ele se divertia, eu me emocionava, o público aplaudia e as nossas companheiras nos observavam, Ana e Mary, na primeira fileira.
Nos abraçamos ao final da apresentação e, enquanto íamos ao espaço dos esperados autógrafos, perguntamos pra Mary o que ela havia achado da apresentação. Ela, sem rodeios, nos disse: “Nossa, como vocês foram blasé. Não gostei, não.” Zuenir me olhou e rimos amarelo. A gente, quase num jogral, falou: “Ué, é?” Descemos do salto e fomos aos autógrafos com menos ares de vitória do que há minutos. A Ana me olhava de longe. Esse não era muito o mundo dela; ela preferiu observar, e acho que não ia me aventurar a consultá-la naquele momento de recém-insegurança. No momento seguinte, já refeitos do baque, brincamos com a Mary, que permitia a brincadeira, revelando seu humor elegante. Acho que ela fez bem pra nós. Ficamos mais alertas depois da crítica.
Logo na sequência veio a Flip, Festa Literária Internacional de Paraty, uma jovem festa ainda. Eu e Ana, ainda sem filhos — Alice viria a nascer em setembro de 2006 —, fomos, mas fomos sem planejar nada, sem ingressos, apenas com a hospedagem e a vontade de flanar por entre autores.
Avistei outro grande amigo, o Milton Hatoum. Sua esposa, a Ruth Lana, era a programadora daquela edição. Proseamos e, logo depois, avistei o Zuenir e Mary. Fomos festejados, abraçados e fomos caminhando pelas pedras do centro histórico até a despedida, na entrada da tenda principal, quando Zu me pega pelo braço e me puxa em direção à entrada, falando pro rapaz da segurança: “Meu filho pode entrar comigo?” O rapaz permitiu. Vejo por cima do ombro que Mary fez o mesmo movimento com a sua nora, chamada Ana. Uma vez dentro do auditório, meio sem jeito, agradeci e me esgueirava para os fundos da plateia quando recebi uma ordem mais direta: “Nada disso, vai sentar com a gente na frente.” Lá estava eu, entre Zu, Mary, Ana e, numa poltrona vizinha, o editor Luiz Schwarcz, que me cumprimentou um tanto surpreso. Imagina eu, então.
Na saída, agradecidos pela mesa assistida — acho que era o Anthony Bourdain, vejam vocês, que mesa —, fomos até a pousada onde eles estavam. Nos despedimos e estávamos de saída quando Zu nos pergunta com quem iríamos jantar naquela noite. Eu e Ana nos olhamos e dissemos: “Vamos só nós, sem nenhum plano específico.” Zu nos convidou, marcando um horário e já dizendo: “Vocês vêm pra cá e daqui passamos no Paulinho. Até mais tarde.” Nos despedimos, e a Ana me cochichou: “Paulinho?” Na noite anterior, foi o show de abertura da Flip. Com… Paulinho da Viola, grande amigo de Zuenir. Eu cochichei de volta: “Faz de conta que é normal.” Dei um aceno pro Zu e Mary e fomos andando meio desnorteados.
Depois de um longo jantar com apenas três casais — nós, os Ventura, Paulinho e Lila —, voltamos pra pousada numa atmosfera de sonho, desfrutando da proximidade de figuras tão raras. Uma noite mágica que guardaremos pra sempre.
Assim como guardarei pra sempre ser chamado de filho pelo Zuenir, um dos autores mais generosos que pude conhecer nessa carreira como livreiro.
Quis trazer essas pequenas lembranças para celebrar essa amizade no momento em que perdemos o Zuenir e ganhamos essa passagem para a eternidade, onde sua gentileza, seu texto e seus atos como jornalista e figura humana única ficarão pra sempre com cada um dos seus leitores, com cada um dos seus amigos e com cada um dos seus familiares.
Obrigado por tudo, Mestre Zuenir.
Do seu filho, Tahan.