Sento-me diante do computador, abro a IA e leio na tela:
— O que vamos criar hoje?
— Eu tenho algumas ideias para uma história, mas não tenho certeza se funcionam.
— Claro! Escreva aqui suas ideias, que eu vou analisá-las do ponto de vista dos personagens, conflito, ritmo e coerência interna.
— Um homem sobrevive a uma catástrofe natural, que pode ser uma enchente, um terremoto ou um tsunami. Outra hipótese: ele sobrevive a um atentado individual, como dez tiros à queima-roupa. Ele se vê como objeto de um milagre, escolhido para ser o mensageiro de uma revelação. Depois, sente o impulso de transmitir essa revelação ao mundo. Aqueles que o seguirem serão recompensados.
— Acho que aqui há uma história muito forte. Mas eu analisaria com cuidado as duas possibilidades que você mencionou. Há uma diferença importante entre a catástrofe natural e o atentado. A primeira é um acontecimento coletivo, e a sobrevivência do personagem pode ser interpretada como acaso ou sorte. A segunda é um acontecimento privado e intencional. Se, contra toda expectativa, ele sobrevive, isso pode tornar mais plausível que o personagem atribua um significado pessoal à sobrevivência.
— E se o personagem sobrevivesse tanto ao terremoto quanto aos tiros?
— Aqui eu teria alguma cautela. Talvez seja mais verossímil escolher uma das duas situações. As duas tragédias poderiam parecer apenas dois milagres sucessivos, e isso reduziria sua força.
— E se ele interpretasse a sobrevivência à primeira tragédia como sorte, mas, ao escapar da segunda, começasse a se sentir um predestinado?
— Isso poderia funcionar muito bem. Na primeira vez, o personagem atribui a sobrevivência ao acaso, mas, na segunda, o que era apenas uma coincidência passa a ser interpretado como indício de uma intervenção que ele não havia compreendido. As tragédias passam a funcionar como etapas da formação de uma crença.
— Temos que decidir qual das duas acontece primeiro.
— Se a catástrofe natural vier primeiro, a progressão será: sobrevivência coletiva → sorte → sobrevivência individual → predestinação. Se o atentado vier primeiro: sobrevivência individual → intervenção divina → sobrevivência coletiva → confirmação progressiva da fé. Eu tenderia a escolher a primeira se a intenção é mostrar como um homem comum se transforma gradualmente em alguém que acredita ser predestinado.
— Temos então um mito fundador.
— Sim, há aqui características de um mito fundador. Você está pensando em criar uma religião?
— Uma seita já estaria bem.
— Nesse caso, devemos pensar não apenas no mito, mas em quem você quer que acredite nele e no que essa crença promete.
— Acreditarão nele os homens de fé a quem ele dirigirá sua palavra.
— Então já temos o público-alvo.
— Num segundo momento, a revelação se propaga.
— Defesa da marca.
— Quanto àquilo que a crença promete: que tal imortalidade?
— Imortalidade é competitivo, mas está saturado. Teria dificuldade de diferenciação.
— E verdade?
— Verdade é uma proposta difícil de posicionar. É um conceito amplo e disputado. Muitos já afirmaram possuir a verdade.
— E que tal a vida eterna, só que não depois da morte? A vida eterna aqui mesmo.
— Esse é um posicionamento interessante. Desenvolva.
— O fiel não morre nunca.
— Mas e quando as pessoas começarem a morrer?
— Quem morrer é porque não era fiel de verdade.
— Isso resolve o problema da promessa. A morte passa a ser interpretada como prova de que a pessoa não cumpriu as condições.
— Isso é fantástico! E, ao mesmo tempo, verossímil.
— Esse contraste tem se mostrado muito eficaz.
— Acho que também deve haver lugares sagrados, que serão a casa em que ele se encontrava quando a terra começou a tremer e o bar onde bebia quando lhe deram os tiros. E, nas datas em que os dois episódios aconteceram, os fiéis farão peregrinações.
— Isso ajudaria a materializar o mito. As peregrinações funcionariam como rituais de coesão do grupo.
— Então já temos uma seita?
—Temos algo mais próximo de um modelo de negócio. Público-alvo: pessoas aterrorizadas pela morte e pelas catástrofes. Promessa: você não morrerá. Posicionamento: vida eterna aqui e agora. Oferta: adesão à nova seita. Fidelização: permanecer fiel para continuar vivo.
— Agora só falta uma coisa.
— O quê?
— Como eu vou monetizar isso?
— Quer que eu ajude a transformar essa ideia num modelo sustentável?