As eleições de 1989

Sem idade para votar em 1989, uma adolescente acompanha a primeira eleição presidencial após a ditadura e vê sua fé no espírito coletivo se transformar ao longo das décadas
Ilustração: Marcelo Frazão
25/09/2026

Eu tinha quinze anos e não podia votar. Começava o ensino médio numa escola técnica federal e, duas vezes por semana, à noite, ia ao grupo de teatro. Me achava adulta. Talvez por ter crescido sem religião (ateísmo herdado de pai e mãe), estava acostumada à ideia de falsas verdades. Tivera, na oitava série, dois professores jovens — um de geografia, outro de história — que se dedicavam à destruição dos mitos nacionais. Falavam do autoritarismo de Getúlio Vargas, da aliança entre padre Cícero e os coronéis.

A imagem dos jovens rebeldes não se encaixava com os colegas que eu via na escola. Pouca gente se interessava em falar de política — talvez o menino do skate, ou aquele dark, de capa preta e coturnos. De resto, todos pareciam satisfeitos em comer no McDonald’s do shopping center. Os mestres engajados da oitava série nos faziam falta, a mim e às minhas duas melhores amigas. Visitamos o professor de geografia e sua esposa, que tivera um bebê. Não consigo lembrar de nenhuma frase daquela conversa… mas, puxando da memória, apostaria que veio deles a sensação da importância daquelas eleições.

Eu assistia ao horário eleitoral e aos debates: Fernando Gabeira, Ronaldo Caiado, Leonel Brizola, Enéas Carneiro… Os adolescentes tiravam sarro, excitados com a raiva ridícula deste último: “Meu nome é Enéas!”. Lembro-me do jingle de Afif Domingos, do Partido Liberal: “Dois patinhos na lagoa vote Afif 22”. Isso, muito antes do pato da Fiesp. Curitiba era a Curitiba de sempre: foi a capital onde Afif teve a maior votação.

Roberto Freire, o candidato do PCB, fez um comício na minha escola. Lembro-me de sua postura ereta e dos brados em defesa da educação: “Dinheiro tem!”, ele gritava, contradizendo os discursos que pregavam austeridade fiscal (uso, agora, o conceito que só aprendi tempos depois). No almoço de domingo, na casa dos meus avós, anunciei que meu candidato seria o Freire, se eu pudesse votar. Meu tio gargalhou: “Você é comunista agora?!”. Fiquei ofendidíssima com o deboche.

Assisti à contagem dos votos do segundo turno na casa do meu pai, à tarde… estava sozinha, ajoelhada no chão, em frente à TV. Quando a vantagem de Fernando Collor foi aumentando, eu não podia acreditar… Mas como?? Como as pessoas podiam votar naquele teatro, naquela cena, naquela mentira evidente?? Chorei de verdade, eu, que dificilmente choro. Escorreram lágrimas. Foi o fim da minha fé no espírito coletivo.

E o espírito coletivo foi para tantos lados nesses mais de trinta anos… Nas eleições para a prefeitura de Curitiba, em 2004, o Partido dos Trabalhadores foi para o segundo turno (!!). Meus familiares curitibanos votaram na Dilma em 2014 (!!). Em 2012, na eleição para prefeito, lembro-me de postar minhas opções de voto no Facebook, que era ainda um lugar inocente de piadinhas.

E depois… não posso falar dos anos de 2014 a 2018 por transtorno pós-traumático. Vieram pra ficar: o Brasil tropa de elite, o Brasil empreendedor, o Brasil gospel… nada novo, suspiro… Guerreiros e feiticeiros são mais antigos que a escrita.

Sobrou muito pouco daquele “Brasil piada” de 1989, que dançava lambada e se divertia com Mamonas Assassinas. Parei de ler os jornais, parei de discutir com as pessoas. Li o Livro de Isaías e o Novo Testamento, e converso pacificamente com os taxistas paulistanos. Quem me vê passando na rua enxerga uma mulher de meia-idade e fora de forma. Uma tia qualquer. As aparências não enganam — elas protegem. Com a graça de Deus.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

Rascunho