Resta um

Uma fotografia de família e um jogo de tabuleiro expõem perdas, silêncios e afetos impossíveis numa infância que ainda insiste em sobreviver
Ilustração: Carolina Vigna
01/09/2026

É um jogo solitário. A mão esquerda do pai está sobre um dos meus ombros; a direita toca de leve minha irmã. Nós o ladeamos. Não parece haver carinho — é apenas um gesto automático, talvez uma exigência do fotógrafo. O pai jamais esboçou qualquer réstia de amor. O seu DNA veio com os genes alheios a abraços, afagos, beijos e outras delicadezas. Desde sempre, um bruto a construir violências e uma sólida indiferença. Estranhamente, meus olhos estão voltados para cima. Noto que, nas míseras fotografias da infância, sempre estou olhando para o alto, como se evitasse encarar a vida à minha frente. Ou, quem sabe, buscasse, naquele tempo que já me parece uma ficção, um mínimo afago de Deus, uma misericórdia qualquer aos nossos dias, às incertezas que carregava no lombo de sagui. Na outra ponta do altar, minha mãe está ao lado do meu irmão. É uma imagem triste: apenas meu irmão esboça um tímido, um esquálido sorriso. Todos os demais estamos sérios, taciturnos, como se mergulhados numa permanente angústia. Minha mãe é a figura mais desolada — por trás da seriedade, esconde a boca sem nenhum dente. Lembro dos dias a fio em que ia ao dentista da prefeitura: rapidamente, a boca da mãe, que mastigava poucas palavras, perdeu também a companhia dos dentes. Ao fundo, encostados à parede, vasos de flores tentam sugerir alguma alegria. As flores — assim como minha irmã e minha mãe — estão mortas.

O pai chegou em casa com uma sacola de brinquedos de plástico. Aos carrinhos faltavam rodas; às bonecas, mãos ou pernas. Havia algo de bizarro naquela quinquilharia estropiada que o pai conseguira no descarte de uma fábrica. Mas pouco nos importavam as estranhas deficiências: queríamos apenas brincar. Nossa infância — entre o trabalho forçado, a escola e algumas brincadeiras — sempre fora um eterno improviso. Entre as bonecas e os carrinhos, um jogo nos seduziu por algum tempo. Mantinha-se intacto, sem que faltassem peças. O único defeito era que estava empenado. A base do jogo lembrava um barco viking sem nenhum mar à vista. O que nos encantou, a mim e a meu irmão, era a falsa simplicidade do jogo: bastava pular um pino de plástico sobre outro até que restasse apenas um solitário pino. O que parecia simples tornou-se uma verdadeira obsessão. Meu irmão, muito mais hábil para jogos e brincadeiras, logo descobriu caminhos para vencer o desafio. Fui imensamente humilhado. Até que desisti; abandonei o jogo ao relento da vergonha. Deixei meu irmão vencer a si mesmo várias vezes.

Naquele domingo, fizemos a primeira comunhão. Após a cerimônia — na qual o padre aspergiu o medo entre os pecadores; assombrou-nos com as punições divinas a que estávamos sujeitos —, o almoço seria um pouco melhor: a garrafa de coca-cola no centro da mesa como o símbolo de uma felicidade que jamais existiu. O risoto com generosos pedaços de frango seria a iguaria que saciaria a fome dos novos filhos de Deus. Na fotografia — a única em que toda a nossa família está reunida —, eu e meu irmão seguramos um papel que atesta a fé e a sabedoria sobre as coisas do Criador. Apesar da tristeza fincada no rosto, em especial na boca, nossa mãe orgulha-se de nos ter colocado nos trilhos de uma vida abençoada, mesmo com toda a penúria ao redor. Na igreja, sobre nós pairam Deus e sua proteção divina. O plano celestial da mãe, arquitetado missa após missa, não deu muito certo: Deus nunca nos salvou da fúria etílica do pai; a minha irmã morreu numa madrugada abafada de janeiro, aos vinte e sete anos; a mãe, destroçada pelo câncer, morreu agonizando numa madrugada fria de julho; pela manhã, encontrei-a na cama, retorcida, abraçada à morte. As mulheres abandonaram a foto antes do tempo. Os três homens ainda estamos aqui: cada um a arrastar muitos fantasmas sobre um tabuleiro empenado.

Meu irmão anda doente. Apenas um ano e meio separa nossos aniversários. Nunca tivemos festa com bolo, brigadeiro e refrigerante. Não há fotografia possível do inexistente. Nas poucas vezes em que nos falamos recentemente, a voz vem carregada de lamúrias, lamentos sobre um corpo que começa a fraquejar, apesar de ainda estar distante da velhice. É um homem de meia-idade, cujas escolhas na vida o levaram com rapidez para a beira de um óbvio precipício. Despencar parece iminente. Na fotografia da primeira comunhão — encontrada por meu filho numa caixa de bugigangas em sua casa —, não reconheço naquele menino de sorriso tímido o homem em que se transformou: um sujeito, quase sempre, macambúzio; andar lento e arrastado; a emitir queixas sobre a saúde, a vida, a sorte, o pouco dinheiro, a falta de perspectiva, a ausência de praticamente tudo. Talvez, ao me encontrar, pense o mesmo de mim. O que restou daquele menino a olhar para cima? Seremos sempre uma equivocada fotografia.

O pai já não se lembra de quase nada. Ou apenas não tem palavras para recriar o passado. Eu o vejo com alguma frequência na rua onde moramos, numa cidadezinha ao lado de C. Desde há algum tempo, tenho de cuidar dele: médico, remédios, vitaminas, comida, dinheiro. Só não lhe entrego amor. Sempre que o encontro, em geral, pelas manhãs, ele está voltando do boteco — é uma espécie de Ulisses sem rumo, sem grandes aventuras, sem reino para retomar, sem ninguém a esperá-lo. Carrega um pacote de pão nas mãos e a culpa nos olhos. Cumprimenta-me envergonhado, cabisbaixo; os passos denunciam o álcool a borbulhar nas tripas; a vergonha é a única coisa que lhe restou. É um homem velho, sujo e maltrapilho. Está perdendo todos os dentes. Não tenho ânimo para levá-lo ao dentista. É possível que também morra sem nenhum dente pregado na gengiva. Eu levanto a mão, aceno um cumprimento automático, um misto de raiva e pena — dois sentimentos que se solidificaram nos meus ossos. Sua mão nunca esteve sobre meu ombro esquerdo. Eu, às vezes, olho para cima nas fotografias. Ainda somos três. Em breve, seremos nenhum.

Nosso jogo de resta um, enfim, terá um vencedor.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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