O menino do supermercado

Num dia frio e melancólico, o encontro com um menino no supermercado transforma o desconforto da cidade em percepção brutal do desamparo
Ilustração: Italo Amatti
28/09/2026

A cidade às vezes se mostra escura demais. O vento bate gelado, zune em nossos ouvidos, triste, parece desejar anunciar tragédias. A gente se arrepia, sobe os ombros, tenta impedir que a friagem encontre caminhos através da gola, mãos no bolso, junta as pernas tentando aquecer os ovos. O corpo um arrepio só, essência fria e desconsolada. Caminhar de uma esquina a outra é suplício. Sou desses capazes de mudar de humor conforme a temperatura, a claridade. Ver passarinhos encolhidos é para mim desconfortável. O meu e aqueles balançando em galhos, piando baixinho, tímidos, quase imóveis. Tenho interior solar, caatinga, mandacaru. Gosto de suar. Saudade de minha tia Luiza, sotaque alagoano. Ela dizia:

— O povo aqui de São Paulo soa!

Não hoje. O que há pelos cantos é silêncio. Não suam, nem soam. Apenas sofrem um resto de inverno bruto. O desejo de ver realizar-se mágica: as folhas voltarem para as árvores. Sem elas, despidas do verde, parecem pacientes de quimioterapia. Calvas, madeira vazia, lisa. E de que, despencadas, ganhassem cor, perdessem o marrom úmido, sujo, que deixa as calçadas escorregadias.

Sigo com passadas rápidas e cuidadosas, apressado, mas com medo de cair, estatelar-me no chão ameaçador, como se desejasse me livrar do espaço livre o mais rapidamente possível. Cabeça baixa, encolhido, varando o curto caminho entre o apartamento em que venho tentando viver — semelhante a um freezer ultimamente — e o empório da minha infância, perdido no passado insistente. Exigências do cotidiano, inconveniência do dia a dia, algumas coisas faltam e nos exigem movimento. Atiram-nos em direção ao comércio.

Enxugo o nariz úmido com um lenço de pano ancestral. Nele, gravada, com carinho e cuidado, minha inicial em azul. Presente de minha tia-avó Helena. Todo ano, por ocasião do Natal, oferecia-me caixa com três peças de tecido ricamente trabalhadas: brancas, azuis, rosas. Restou-me apenas uma, o erre bordado. Motivo de chacota familiar. Consideram o hábito falta de higiene. Guardar no bolso um objeto emporcalhado com ranho é nojento.

— Você tem que usar lenço de papel!

Algumas implicâncias são intoleráveis. Por que devo abandonar um afeto que me é útil?

Finalmente, chego ao meu destino. Vou direto às gôndolas necessárias. Conheço bem o local, sei onde expõem quase tudo. Coloco na cestinha as raras urgências solicitadas em casa: detergente — não pode ser da marca Ypê —, salsinha, desodorante, jaboticabas — é época, estão lindas. Pronto!

Um menino mal agasalhado se aproxima. Shortinho, camiseta puída, sandália de dedo. Embaraçado, visivelmente cumprindo ordens superiores ao seu desejo, mostra-me uma lata de leite em pó e um pacote de fraldas.

— Podia me ajudar, é para o meu irmãozinho.

A melancolia então se avoluma em nível quase insuportável. Cedo mortificado. Pago as coisinhas do garoto. Aflito, desejaria seguir com ele para uma loja e comprar-lhe agasalhos.

Na volta ao lar, meu sentimento continua glacial. Carrego a catástrofe no estômago.

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho