A fotografia

Do retrato desbotado da infância às imagens felizes do presente, a fotografia revela o tempo que molda, separa e insiste em permanecer
Ilustração: Carolina Vigna
01/06/2026

A única fotografia da infância é triste. Diante da casa de madeira, nós três. A imagem congelou — suspendeu no tempo — uma vida que parece nunca ter existido: irmãos a brincar uma infância feliz. Quem são aquelas três tristes crianças? Onde a infância? Onde a felicidade? É melancólica a figura inanimada: estamos os três com o rosto sem o mínimo rasgo de alegria. Os lábios não esboçam nem uma nesga de satisfação — herdamos da mãe a timidez taciturna da boca. No canto da imagem, no terreiro de terra dura e ressecada, desponta um pé de guanxuma, uma praga que invadia o terreiro e usávamos para fazer vassoura. O portão desbeiçado revela parte da casa, um barraco sem luz elétrica, água encanada ou banheiro, infestado de pulgas. No fundo, um poço, de onde tirávamos água para o banho, lavar a louça e cozinhar. As frestas indecentes transformavam as noites de ventania em sinfonia assombrosa. A casa uivava como lobo faminto. Já habitávamos a pança da fera, e éramos alimento desprezível. Estou na garupa do cavalinho de madeira, que ampara uma frágil charrete, onde minha irmã, a caçula, está sentada; meu irmão permanece em pé. Há certa simetria na altura de nossas cabeças. Tenho por volta de cinco anos — e, em uma história equivocada e risível, já havia me embebedado, mantendo a maldição de alcoólatras na família. Pouco mais de um ano separa nossas idades. Somos três crianças tristes. A solidão da fotografia se espraia para além de suas bordas. Usamos, possivelmente, as melhores roupas — boa parte delas recebida de doação. As calças de tergal azul são obra da habilidade de costureira da mãe. Meu irmão usa uma camiseta com a ridícula frase: “as feras radicais”. Não somos feras, não somos radicais. Minha irmã está de vestido branco — é uma criança miúda, um tanto amuada, no assento de madeira da charrete. As canelas finas denunciam a magreza que nos assolava a todos. Eu e meu irmão temos a cabeça raspada: algo comum em nossa infância infestada de piolhos. O pai nos sentava em uma cadeira nos fundos da casa e, com mãos desajeitadas, conseguia devastar nosso cabelo, expulsar e matar os inimigos. Uma das poucas batalhas que o pai lutou pelos filhos. Mas, na fotografia, o que mais me chama a atenção são os sapatos. Eu e meu irmão calçamos pares idênticos. São pretos, com o bico quadrado. Um detalhe medonho sobressai: nossos sapatos não têm cadarços. E estão desgastados nas pontas. Se estamos de sapatos iguais, de onde vieram? E por que estão sem os malditos cadarços? Teriam sido roubados, às pressas, de algum varal? Não, isso seria impossível: o pai era um sujeito bruto, bêbado e silencioso, mas jamais foi ladrão. Talvez a mãe tenha tirado os cadarços para deixar os calçados mais confortáveis — o que também me parece uma ilusão: nunca tivemos direito a confortos. A roda da charrete é de bicicleta, mas o inerte pangaré é de madeira. Uma charrete que não vai a lugar nenhum, com três crianças tristes.

Sempre que vamos aos jogos do nosso time, tiramos a mesma fotografia. Temos dezenas da mesma imagem: eu, em primeiro plano; meu filho, às minhas costas. É uma fotografia simples, sem qualquer preparação. Ao sentarmos na arquibancada, o ritual se repete. No começo, nas primeiras idas ao estádio, ele ficava no meu colo — um menino magro, esguio e feliz. Encantava-se com a balbúrdia contagiante da torcida organizada. O vozerio das arquibancadas nos enchia de uma felicidade compartilhada, um momento em que éramos apenas pai e filho, dois torcedores. Agora, à beira da vida adulta, surge por trás do meu ombro com a certeza de que talvez não seja uma mera fotografia. Nunca comentei o significado de tantas imagens iguais, quase sempre no mesmo lugar, com a gritaria que nos acolhe. Ele não sabe dos meus planos de congelar um novo tempo, deter a rotação da Terra. Nenhum de nós tem a cabeça raspada — piolhos não nos preocupam. Usamos bons tênis, sempre com cadarços. Ele, em geral, veste uma camiseta rubro-negra. Algumas vezes, minha filha caçula junta-se a nós. Transformamo-nos em três. O que mais me chama a atenção nas fotografias — todas devidamente arquivadas — é o sorriso permanente. Não é um desenho forçado no meio do rosto. Sorrimos pelo simples fato de que estamos juntos, de que estamos ali, naquele instante. Quando meu filho era pequeno, a cada gol do nosso time, eu o jogava para cima e o amparava com delicadeza. Agora, quase homem, com a incipiente barba a despontar, abraçamo-nos em uma genuína felicidade. Ele me abraça por mais um gol; eu o abraço por vários outros motivos.

A única fotografia da infância está se desbotando, as cores perderam a força. Por ironia, os rostos são os mais atingidos. Os ridículos sapatos seguem incólumes, sem os cadarços. A reprodução ordinária começa a perder a batalha para o tempo. A imagem estava aprisionada num monóculo. Um dia, encontrei-o numa gaveta, e ao olhar para dentro daquela espécie de túnel do tempo, espantei-me: havia três crianças tristes aprisionadas. Resolvi reproduzi-la em papel. Devido à baixa resolução, rendeu apenas uma fotografia pequena, acanhada, hoje sufocada num antiquado porta-retrato. Talvez seja necessário digitalizar e imprimir novamente. Caso contrário, em algum tempo, aquelas três crianças desaparecerão. Minha irmã morreu jovem — numa madrugada de agonia e desespero. Já não existe mais. Meu irmão está por aí, distante como sempre, com suas doenças e seus problemas. A mãe já morreu; o pai vive seus derradeiros dias. Nunca mais tiramos outra fotografia com os três irmãos juntos. Não é preciso se preocupar com o apagamento da imagem. Talvez aquela fotografia nunca tenha existido.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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