Agridoce

Uma manhã comum, atravessada por irritações, memórias e cinema, revela como pequenos incômodos abrem um caminho para coincidências que iluminam afetos
Ilustração: Eduardo Mussi
07/08/2026

São 6h30 da manhã. Bato a porta de casa como faço, de segunda a sexta, a essa hora. Ao me encaminhar para o elevador que me levará à garagem, cerca de seis passos adiante, o refogado da vizinha invade as minhas narinas recém-despertas. Uma coisa um tanto agressiva, aquele perfume de alho — algumas vezes um odor acentuado de peixe, em outras o aroma de temperos que eu preferiria evitar —, contaminando o gosto do café que acalento na boca. Me pergunto quem cozinha àquela hora com tamanha animação, tento recuperar o gosto do café, imaginar seu cheiro, tão mais de acordo com o início do dia. Descemos em silêncio. Minha adolescente tem os olhos inchados de sono pousados em mim e o pensamento longe dali. Entro no carro sob o efeito incômodo do refogado da vizinha.

Ando ácida. A verdade é essa. Ácida e à flor da pele e cansei de responsabilizar os hormônios que, ao que parece, têm oscilado bastante e me deixam, a maior parte do tempo, desnorteada. Num dia, uma tristeza caudalosa; no dia seguinte, euforia na veia. Me preocupo com esse estado de desequilíbrio e com a integridade física das pessoas no meu entorno. A começar pela vizinha do refogado matutino.

Imersa nessa acidez, me ocorre que as ferramentas disponíveis no mundo virtual vêm se tornando imprescindíveis na vida fora das telas e precisariam, com urgência, ser transpostas e incorporadas à vida real. Resta saber como.

Se a vizinha do lado capricha no refogado, a do andar de baixo se esmera em incomodar a todos com o som que emana. Imaginem que sonho seria um botão na parede com os dizeres: silenciar 802. Vizinha mutada, paz recuperada, silêncio reinante. Penso que deixar de seguir e bloquear poderiam ser parte de um único dispositivo. Um pequeno controle remoto como esses de abrir o portão da garagem que a gente carregaria na bolsa. Mensagem grosseira no WhatsApp? Alguém fingiu que é míope para não te cumprimentar na rua? Nunca respondeu sua mensagem ou e-mail? Teríamos duas opções: (i) o botão laranja “Deixar de seguir” faria com que você não enxergasse mais a pessoa em questão. Pode cruzar na rua, esbarrar no shopping ou, saindo do cinema, encontrar nessas festas onde todo mundo se abraça e diz que se ama e posa para fotos que serão postadas em carrosséis no Instagram. Parou de seguir: a pessoa se torna invisível para você; (ii) o botão vermelho “Bloquear” se aplicaria a casos extremos. O indivíduo não conseguiria chegar perto ou estabelecer qualquer tipo de contato com você. Ainda que quisesse muito. Bloqueou e pronto. Ergue-se um muro intransponível. Tudo resolvido. Se insistir, leva um choque cuja intensidade seria dosada de acordo com o gosto do freguês. Os envolvidos na treta passam a viver em planetas distantes. Outra alternativa seria alimentar um desses assistentes virtuais com certas instruções: silenciar fulana, deixar de seguir beltrano, bloquear sicrana e ele daria conta do recado. Como ninguém pensou nisso?

Chegamos à porta da escola. Minha adolescente conclui a maquiagem que executou concentrada durante o trajeto. Borrifa o fixador sobre aquele rostinho lindo que não precisaria nem de protetor solar, mas eu já cansei de repetir a mesma coisa. Desliga o João Gomes, beijo, mãe, boa aula, obrigada, bate a porta. Não conecto meu celular ao som do carro. Quero aproveitar o silêncio. Tenho dez minutos até a academia. Já me recuperei dos engulhos provocados pelo refogado da vizinha e, no entanto, foram eles que me levaram a divagar acerca da transposição das providenciais ferramentas das redes para a vida.

Isolada dentro do carro, navego por uma manhã de céu azul pensando sobre o novo filme do Christopher Nolan, A Odisseia. Gostei bastante, ainda que tenha achado um tanto pudico. Faço a anotação mental “rever”. Saí do cinema empolgada, ainda mais fã da Penélope, personagem que sempre me fascinou. Lembrei da minha mãe, décadas atrás, contando aquelas aventuras todas para mim e para a minha irmã, noite após noite, despertando a imaginação daquelas duas meninas. Uma lembrança acesa após a sessão de cinema.

São 6h55 e chego à porta da sala onde faço ginástica. Entra uma mensagem do meu pai com o link para a coluna que ele escreve quinzenalmente no site da revista Piauí. Leio o texto, de 29 de julho último, relembrando o amigo recém-falecido. Em determinado trecho, ele menciona seu primeiro longa-metragem, produzido pelo amigo que acaba de morrer. Lição de amor. Meu professor me convoca e levo alguns segundos para reagir. Há algo que chama a minha atenção. Algo que eu não tinha notado até aquele momento. Uma coincidência. Talvez boba, talvez nem tanto. Intrigada, me dou conta: o primeiro filme de longa-metragem dirigido por meu pai, em 1975, se chama Lição de amor. O primeiro romance da sua filha, O amor na sala escura.

“Clarisse, vamos?”, indaga meu professor. “Vamos”, respondo, animada.

Clarisse Escorel

É carioca, formada em Direito pela UERJ e mestre em Direito Internacional pela USP. Atuou na área de propriedade intelectual e direitos autorais e, desde 2019, vem se dedicando à literatura. Seu primeiro livro, Depois da chuva (crônicas), foi publicado em 2023 pela Ouro sobre Azul. Em 2024, publicou a plaquete Diamantes (Mapa Lab). Em 2026, estreou como romancista com O amor na sala escura (Bazar do Tempo). Desde março de 2025, é cronista do Rascunho.

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