O assunto é batido, já aviso. A pergunta é, a um só tempo, curiosidade e pedido. Sou dona de uma considerável biblioteca, das boas, com obras literárias e técnicas, inclusive algumas trazidas de longe e caras. Nada muito raro, nem tão precioso assim, sabe lá, mas o fato é que parece evidente, a muita gente, que eu seja uma dessas pessoas que leem e a quem os livros importam acima da média. São um investimento, são parte da vida diária, são objetos de estima, de desenvolvimento, são mais queridos do que outras tantas coisas. Fica óbvio que trato os livros como entes especiais, como companheiros e patrimônio. (Henriqueta Lisboa, poeta mineira prolífica, escreveu um poema que muito me encanta, intitulado Do supérfluo, em que trata justamente dos livros como um “intransferível patrimônio”.)
Há uma pergunta que quase toda pessoa como eu escuta com relativa frequência: “Você empresta livro?”. Assim, desse jeito. É uma indagação geral, entrada de conversa, premissa que desdobra, ou não, o resto da interação. Respondo sem pestanejar e sem constrangimento algum: “Não”, e damos por encerrado, e dito, e feito. Não há o que argumentar porque o “não” é suave, sem justificativas, sem explicações. Um “não” categórico, educado e definitivo. E não convém, a esta altura, que me ensinem o que devo fazer com meu patrimônio bibliográfico, que, se interessa a alguns, desinteressa a tantos mais. É assim o mundo, nesse desequilíbrio.
O que se passa? É que a experiência dura de não ter um livro devolvido é insuportável. Pela perda financeira, que não é de se desprezar, mas principalmente pela perda simbólica. Lembro bem do meu sofrimento solitário quando minha mãe recebeu de volta, um dia, uns livros didáticos, desses de física, português, química, que usávamos na escola. Vejamos que são livros utilitários, geralmente pouco dados aos afetos, ainda mais física e matemática, para o meu gosto… Mesmo assim, me doeu enormemente receber os volumes, um ano depois de emprestados, sujos, dobrados, marcados, com as capas cortadas a estilete, maltratados, rabiscados. Sem limites aquelas pessoas, primos, na verdade. A dor de vê-los emprestados tinha razão de ser. Jamais recebemos de volta o que emprestamos, nem sequer um toque de cuidado na devolução. E isso me incomodou profundamente. O descuido com o que é do outro, mais do que o descuido restrito ao objeto. E me incomoda o descuido em muito mais âmbitos.
Eu, que já não era de emprestar esse tipo de “intransferível patrimônio”, e ainda nem tinha uma grande biblioteca, aprendi uma dor que não gostava de ter; ademais, também a achava desnecessária. Por que devo emprestar meus livros? E a quem? Quais são, afinal, as pessoas dignas de confiança no mundo? Essas a quem podemos emprestar nossas coisas de afeto, confiando que serão devolvidas intactas, limpas, cuidadas? Só mesmo uma pessoa amorosa com os livros entende a outra. Em alguns casos, esses seres se reconhecem, se identificam, e nem começam essa conversa do empréstimo; em outros casos, até se emprestam, sabendo que estão entre pares muito parelhos. Mesmo assim… O meu negócio foi radicalizar. Não empresto escova de dente, nem livro.
Nas últimas duas ou três semanas, algumas pessoas me fizeram a pergunta: “Você empresta livro?”. Parte da curiosidade, à qual pode se seguir um perigosíssimo pedido, tem relação com o fato de eu ser professora, ter por profissão o ensino da língua, ser uma pessoa condizente com os livros, os estudos e uma biblioteca. Alguns pensam, assim, que por isso, por dever profissional, eu deveria ser alguém que empresta livros porque deve um tipo de retorno social, auxílio bibliográfico, serviço de orientação e investimento no desenvolvimento alheio. Pois sim, faço isso por meio de indicações, curadorias, recomendações, o que já me dá grande trabalho: o de comprar, o de ler, o de estudar, o de saber, o de, então, ensinar. A parte do empréstimo diz respeito a outros âmbitos, tais como a biblioteca da instituição onde trabalho, que deveria receber o devido investimento e, com ele, manter um acervo interessante, diverso, equilibrado entre o clássico e o novo etc. Se não o fazem todos os setores do mundo que deveriam fazer, só posso lamentar. Até mesmo um marido, se o houvesse neste momento, só poderia ler meus exemplares sem jamais tirá-los de casa. Empréstimos locais e sob vigilância, com a condição de devolver tudo igualzinho, cuidadinho, no mesmíssimo lugar da estante. Se a bagunça existe, ela é minha.
Mas e seus alunos? Não tem pena deles? Ou o desejo de ajudar? Ah, claro, estimulo veementemente que leiam. Estudem, aprofundem-se, dediquem-se, com livros que não haverão de faltar, tanto em livrarias quanto em espaços de empréstimo, até mesmo por meio da pirataria, que eu mesma não faço. Meus primeiros livros foram adquiridos com o dinheiro do lanche que eu não fazia na escola pública onde estudava. Com isso, fui juntando uns materiais, depois comprei uma estante (celebrada!), depois comprei mais, fui enchendo um quarto, uma sala, duas. O empréstimo fica fora dos meus objetivos. “Você empresta livro?”, “Não”, e mudamos de assunto serenamente. O que acontece é que há borbotões de exemplos de sumiços, obras não devolvidas, débitas, perdidas, emprestadas por quem nem era dono a outros que tomam empréstimos dos folgados emprestadores. Passo. Não durmo com essas. E, vejam, tem mão dupla: da última rara vez em que aceitei um livro emprestado (insistiram), um romance hypado que já esqueceram todos, me senti em desequilíbrio com o universo, devedora, louca para ler e devolver logo ao dono, que parecia se importar muito menos do que eu com essas transações. Tome logo, e não me empreste mais nada entre capas.