O pecado de ter folhas

O livro impresso resiste ao descarte e revela o peso escondido do mundo digital, colocando em dúvida certezas fáceis sobre sustentabilidade
Ilustração: Eduardo Mussi
12/08/2026

No restaurante, o rapaz da mesa segurava um tablet e falava, com a segurança dos recém-convertidos, sobre sustentabilidade.

O livro de papel, explicou à moça, era um hábito ultrapassado. Árvores, transporte, tinta, resíduos. Tudo muito grave. Dizia isso enquanto manejava dois celulares, um fone sem fio e um relógio que precisava ser alimentado pela tomada uma vez por dia.

Eu não disse nada. A idade ensina a escolher melhor as batalhas.

É evidente que fabricar um livro consome recursos. Nenhum romance sai da gráfica movido a bons sentimentos. Há papel, energia, tinta, transporte. O problema começa quando se compara esse objeto a um mundo que finge não ter peso, fabricação nem consumo elétrico.

O universo digital tem essa vantagem extraordinária: a sua sujeira quase nunca aparece na fotografia. O leitor vê a tela lisa. Não enxerga a extração dos minerais, a produção do aparelho, a bateria que envelhece, a energia consumida para manter a máquina global respirando dia e noite.

A tecnologia não aboliu a matéria. Só aprendeu a camuflá-la melhor. Já o livro tem um defeito terrível para a economia contemporânea: dura muito.

Pode passar de pai para filho, de desconhecido para desconhecido. Sobrevive a mudanças de sistema, falências de conglomerados e atualizações obrigatórias. Um volume antigo não acorda certa manhã informando que deixou de ser compatível com a estante.

O papel envelhece. A obsolescência é que tem pressa. Há exemplares que atravessam décadas com uma dignidade que poucos aparelhos eletrônicos alcançam em cinco. E quando trocam de dono, tornam-se ainda mais inconvenientes para a lógica do descarte: continuam úteis sem exigir nova fabricação.

O nome disso hoje é economia circular. No passado chamava-se não jogar fora o que ainda presta.

Mas o debate ecológico tem seus réus de estimação. O papel é condenado porque se vê; o impacto digital, por ficar escondido, passa por inocente.

O livro impresso, porém, tem vantagens sobre o e-book: continua circulando sem depender de aparelho, bateria ou plataforma. Não é mais sábio por ser de fibra vegetal. Apenas costuma sobreviver melhor às modas que o cercam.

Não se trata de declarar o livro físico inocente. Pureza ecológica é uma fantasia produzida por departamentos de marketing. Mais sensato seria perguntar algo menos infantil: quanto um objeto custa ao planeta, qual o seu tempo de duração e até quando pode continuar sendo útil.

Nesse momento da minha reflexão, o rapaz terminou o café, guardou o tablet, os dois celulares e os fones numa mochila.

Na mesa ficou apenas o guardanapo. No fim, o papel sempre paga a conta.

Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

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