Ao descer para comprar pão, esbarro com o senhor Antunes, meu vizinho do 20º andar. Ele não me cumprimenta e eu não me importo. Admito que nunca dou atenção ao senhor Antunes. Nos elevadores, na garagem, no salão de festas, na piscina muitas vezes nos encontramos sem perceber que nos vemos. A verdade é que eu o trato como se ele fosse uma porta ou um hidrante. Com meu desleixo, eu o desumanizo. Nas grandes torres residenciais, cruzamos diariamente com pessoas que mal vemos, que ignoramos e que até desconsideramos. Não por maldade ou grosseria, mas por tédio.
Não devo me culpar por isso. O que eu poderia ter contra o apático senhor Antunes, um professor de metafísica que, desde a morte da mulher, leva uma rotina deprimente em um apartamento vazio? É verdade que ele tem um gato, Jeremias, e que, na companhia de um casal de japoneses, frequenta um clube de Mahjong. Mas nem esses hábitos fazem dele um bom personagem. Por que então me dedico a escrever sobre ele? Por que cismei logo com ele?
Nem o gato, nem o jogo milenar preenchem seu vazio. Nem sei se ele é mesmo professor de metafísica; dizem isso porque o senhor Antunes vive com a mente além das coisas, além da física. Vai ver é só um homem distraído e com deficiência de memória; pode até sofrer de alguma demência senil, mas por isso lhe atribuem um saber elevado. Quando não tem nada para fazer, o que acontece com frequência, o senhor Antunes se senta na borda da piscina do condomínio — em geral suja e desolada. Faz da piscina seu Egeu. E, como um pré-socrático, imagina que é daquela água porca que tudo se origina. O que, convenhamos, é desanimador.
É assim, meditando no parque aquático, entre folhas secas, guimbas de cigarro e restos de embalagens, que eu agora o encontro. Eis minha chance de fisgá-lo, eu decido como um bom cronista. Está, como quase sempre, agarrado a um livro de capa dura e lombada roída. Um livro que, na verdade, nunca ninguém o viu lendo. Foi assim: eu fazia uma faxina na sacada, cheguei até a borda para bater meu tapete, e então ele despencou. Caiu, por sorte, bem aos pés do senhor Antunes, que, no entanto, continuou imóvel.
Desci às pressas e encontrei meu tapete turco tão próximo do senhor Antunes que só me restou dizer: “Ainda bem que o senhor tomou conta dele”. Olhou-me e perguntou: “De quem?”. Eis aí a metafísica do senhor Antunes, que parece mais um déficit de atenção e um problema cognitivo do que uma filosofia. Abaixei-me, enrolei o tapete e já ia em direção ao elevador quando ele me perguntou: “O senhor acredita no Absoluto?”. Vacilei, não sabia se devia lhe dar ouvidos ou seguir meu caminho. Um sentimento difuso, que se aproximava da bondade, mas também do cinismo, me fez voltar.
“O senhor deve ser um dos que não gostam de mim”, ele disse, com uma voz lamentosa. Um vento frio espantava os frequentadores da piscina. Ao fundo, um faxineiro limpava a quadra de vôlei. O ambiente vazio se emparelhava com a figura oca do senhor Antunes. “E por que não gostam do senhor?” — me senti obrigado a perguntar. Larguei meu tapete encostado a uma mesa e esperei, de pé, que me respondesse. Pensei em me sentar um pouco, mas, caso fizesse isso, ele não me largaria mais. É um prisioneiro da solidão e isso o esvazia. Esse vazio é o que, de fora, tem uma aparência elevada. É o que chamam de metafísica. Talvez seja só uma cólica.
“Não gostam de mim porque, desde que minha mulher morreu, só me interesso pelo Absoluto”, explica. Ainda em dúvida se devia me despedir ou ficar, lhe perguntei: “O que o senhor entende por Absoluto?”. A resposta estava em seus olhos, que atravessavam a realidade como agulhas de crochê, e se lançavam em direção ao nada. Não se mexia — limitava-se a, com a ponta dos dedos, brincar com a água da piscina. Não era uma brincadeira, era um tique nervoso, era desespero. Talvez fosse ódio. Não tive mais dúvidas: o senhor Antunes sofria. Buscar o Absoluto era sua forma de sofrer.
Explicou-me que, embora tivesse a fama de filósofo, desprezava a filosofia. “Não sei de onde tiraram isso”, confessou, “nem sei o que é metafísica”. A verdade é que ninguém no condomínio se importava com o senhor Antunes. Não parecia humano, embora não fosse desumano. Não parecia existir. Seria só o fantasma de algum morador falecido? Voltei a abraçar meu tapete, sinalizando que desistira da conversa. “Posso subir com o senhor?” Não soube dizer que não. Esperei que se levantasse. Enquanto se erguia, lento, pesado (embora fosse magro), oscilante, temi que desabasse dentro d’água. Não soltava o livro, e isso o atrapalhava ainda mais.
A caminho do elevador, para mudar de assunto, perguntei: “O que o senhor está lendo?”. Respondeu que era o “Quixote”. Confessou: “Na verdade, nunca o li. Mas sei que, um dia, serei obrigado a ler e por isso não o deixo”. Tudo, no senhor Antunes, bordejava o imaterial. Tudo era longínquo e adiado. Ele mesmo, silencioso, curvo, arredio, pedia licença para existir. Fez questão de descer em meu andar. Temi que se convidasse para entrar, mas não fez isso. “Quero apenas vê-lo chegar em casa”, me disse. “É tão bom ter uma casa.” Lembrei-lhe que ele mesmo tinha um apartamento no condomínio. “Aquilo não é nada. É só um resto de minha mulher.” Ali compreendi a extensão do luto.
Eu já ia abrindo a porta, quando ele me disse: “O senhor sabia que me chamam de Muquifo?”. Era uma agressão que ele não merecia. Em sua invisibilidade, não incomodava ninguém. Podia não haver riqueza na figura do senhor Antunes, mas aquele apelido falava de uma miséria que também não existia. Pensei no modo como condenamos as pessoas simplesmente porque elas não se deixam ver. Desde aquele dia decidi que, sempre que me encontrasse com o senhor Antunes no elevador, eu o ouviria. Ainda que não me servisse de nada, ele era alguém que, mesmo que aos tropeções, tentava se aproximar de mim. Decidi que me tornaria amigo do senhor Muquifo e aqui estamos, em uma morna manhã de domingo, jogando dominó.