Síndico

Ser eleito síndico por impulso requer enfrentar obras, pandemia, pets, portões e vizinhos e descobrir que até o menor poder cobra caro de quem o exerce
Ilustração: Thiago Lucas
03/08/2026

Não perguntem como me inventaram síndico do prédio onde habito. Às vezes somos imbecis fortuitamente, sem que percebamos o desatino; apenas deixamos a canoa furada seguir, seja lá para onde for.

Quando comprei um apartamento no condomínio, muito esperto, percebi haver necessidade de melhorias; sem elas, o patrimônio adquirido perderia valor com o tempo. Como sou um escritor acostumado a lidar com obras, empresas de construção e orçamentos, nada disso me parece estranho — faz de conta que falo a mais absoluta verdade —, resolvi me candidatar, pois às vezes sou tomado por uma força maligna: ela me garante ser o sucesso apenas uma questão de empenho e boa vontade, faz-me crer ser capaz de qualquer empreitada. Infelizmente, fui eleito.

Vieram as obras, uma pandemia durante a restauração das estruturas do edifício e a pintura da fachada, a falência da empresa contratada, negociações para não perdermos o dinheiro investido na reforma, discussões com os condôminos, ávidos por processar o pobre empreiteiro quebrado, atrasos enormes no cronograma do serviço que, graças à paciência infinda do administrador do conjunto habitacional, chegou ao término. Tudo bem-feito, elegante, paredes branco-gelo; hoje em dia, todos os moradores podem se orgulhar do recanto onde vivem.

Talvez pelo sucesso obtido ou por estupidez renitente mesmo, recandidatei-me algumas vezes; estou em meu quarto mandato. Tenho a impressão recorrente de que o poder nos corrompe, mesmo quando ínfimo; afinal, ser responsável por 16 imóveis nem é autoridade de tanta monta. Sinto-me bem quando entro no elevador e encontro algum vizinho desobedecendo às leis da convenção. Geralmente, assustam-se, abaixam-se e pegam rapidamente seus pets no colo; sabem que não é permitido deixar os bichinhos soltos, devem carregá-los em seus braços. Norma imperativa enquanto a viagem até o andar de destino é realizada. Desviam o olhar; percebo, inebriado, todo o desconforto que minha presença provoca.

Lidar com gente tem sido um exercício desafiador. Principalmente em um mundo onde, creio, a sanidade se torna cada vez mais uma característica em falta na humanidade.

Outro dia, no aplicativo por onde nos comunicamos, a residente do 505 enviou mensagem desesperada, garantindo haver, sem querer, jogado o gato no lixo. Pedia ao zelador o grande obséquio de procurar o bichano nas lixeiras do subsolo. Pacientemente, o rapaz foi até o domicílio, encontrando-a chorando e nervosíssima.

— Dona Rosa, é impossível. Jamais o Tom permaneceria quieto dentro do saco preto, mesmo ele sendo grosso e resistente. É um bicho, tem medo, se movimenta, daria um jeito de sair de lá.

Rapidamente, encontrou o felino escondido debaixo do sofá.

As situações estranhas, contudo, multiplicam-se. Achei demais ver alguém reclamando de haver um morcego debaixo do travesseiro. Imaginei até ser coisa relacionada com drogas; o autor da queixa nunca me inspirou grande confiança. Surpreendentemente, segundo o porteiro, um passarinho, talvez friorento, havia buscado o calor das cobertas. Foi abrir a janela para espantá-lo, e ele voou para fora do quarto.

E assim vou cumprindo minha sina. Vendo os portões apresentarem problemas diariamente por manuseio inadequado, esquecerem a chave e pedirem socorro para entrar em casa, culparem-me, enfurecidos, quando o elevador enguiça. A gente se acostuma à canga. E não queiram saber por que permaneço, por favor.

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho