Uma flor branca, o tédio e o inverno

Um dia normal de trabalho durante a pandemia é invadido pelo som de um sax que, sem nenhum anúncio, se insinua pelo apartamento do cronista
Ilustração: Oliver Quinto
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25/07/2021

Mas que fim levou a sedutora Emily do Sertão? E o professor de literatura uruguaio? Continuaram a trocar poemas? Ele permaneceu firme em seu plano de visitar o Brasil? Marcaram de se encontrar? Romperam? Essas foram algumas das mais constantes (e insistentes) perguntas que recebi durante os dois últimos meses. Bastava entrar nas redes sociais e eu era logo metralhado, a torrente dos disparos lançados à queima-roupa, o/a curioso/a inclemente, preferindo ignorar os aviõezinhos de papel que joguei no esforço de despistá-lo/a, e até mesmo demonstrando-se indiferente ao suplício da minha caminhada na orla, quando me deparei com todo aquele horror cristalizado (atenção, navegantes do Rascunho, esta é a deixa para os marujos de primeira viagem abandonarem o convés e correrem pra ler as primeiras crônicas publicadas).

Nada disso os interessava. Nada disso os comovia. Não perderam seu tempo em me desejar bom dia, boa tarde ou boa noite. Não. O ataque foi frontal. E não se limitaram às mensagens privadas. Chegaram também por telefone. Gente de Salvador e de outras cidades. Do Brasil e do exterior. Por isso, aviso logo antes de começar a desenvolver meu tema, a vida amorosa de Emily não será tratada aqui. Ao menos, neste momento. Explico: o professor comprou passagem pra meados de agosto. Além disso, não tenho certeza se Emily me contará algo. Veremos.

***

A tarde avançava cinza e sem vontade neste inverno, que parecia mais inverno do que outros, mais turvo do que outros. Eu estava preso à cadeira, a cara enfiada no notebook, redigindo despachos e examinando documentações. O retrato de Caio F., emoldurado na parede, quase rente aos meus olhos, não amenizava a aridez do trabalho. A foto sépia registrava uma outra tarde, um mortiço sol londrino, Caio sentado no campo, talvez um parque, as costas apoiadas numa árvore, vestia um casaco de pele e de sua bolsa, caída na cintura, despontava uma flor branca. Seu semblante aparentava mirar algo indistinto, algo além da foto, com serenidade.

Na pandemia, minha residência substituiu a sala da repartição. Para não correr o perigo de andar de ônibus e me contaminar, aderi ao sistema do trabalho remoto. Acabou-se o doce alarido dos colegas em torno das notícias ordinárias, as queixas pelo excesso de processos acumulados, as risadas sinceras e as forçadas, a reclamação com o descaso do Governo pelos nossos pequenos e grandes problemas. Eu já estava há um ano confinado e a única agitação, fora a do barulho dos motores dos ônibus passando na Marquês de Caravelas, era o maldito toque de celular em sua tentativa vã de me passar um golpe cibernético.

Em tudo, o tédio. Oito horas de trabalho cinco vezes por semana. Tédio. À minha direita, o inverno se impunha pela fresta da janela. Eu me apartava do mundo por uma película escura na vidraça. Ela permitia a mim espiar os prédios em frente sem ser visto. A vizinhança também escondia sua melancolia. Eu seguia anotando os dados de um requerente, digitando pareceres e encaminhando arquivos. O tempo continuava sendo o de espera e receios. Não havia sombras atrás das vidraças do outro lado da rua. Cada um enclausurado na sua própria caixa. A tarde, cinza.

Então, aconteceu! O som de um sax vibrou pelo ar e, sem nenhum anúncio, foi se insinuando em nossos apartamentos. Eu parei imediatamente o que estava fazendo, amparei os cotovelos nos braços da cadeira e tentei identificar a melodia. Era Naquele tempo, de Pixinguinha. Os motores dos carros cessaram seus roncos, os cães interromperam suas cismas, as sirenes dos carros de polícia e ambulâncias todas se silenciaram ao som daquele sax. A música invadia nossos ouvidos e, fogosa, atrevida, preenchia um espaço esquecido. Eu logo me levantei e me dirigi para a varanda.

Na calçada, um homem soprava seu instrumento prateado. Estava abrigado por uma armação metálica retangular na cabeça, que por sua vez estava encoberta por um plástico transparente descendo até a altura das canelas, quase um paragonlé de Oiticica. Terminou o Pixinguinha, fez uma breve pausa e tascou Ain’t no sunshine (when she’s gone). As janelas enfim se abriam, pessoas aplaudiam e, como por milagre, o chumbo das nuvens ia se clareando e dissipando. Uma senhora no terceiro andar do prédio em frente gritava para que uma criança corresse para ver. O porteiro, escondido na guarita, desligou seu celular. Até minha amiga Moema Franca, que também é escritora e mora dois andares acima, esticou seu pescoço para fora e deixou-se embalar pelo ritmo.

A apoteose veio com Desafinado. Vi distintos casais se aproximarem, comprimirem os olhos e juntarem as mãos. Aos pés do desconhecido músico, um pratinho gasto e amassado jazia. O saxofonista não estava vestido com nenhuma roupa cara. Abaixo de sua cabana de proteção, notava-se que sua camisa estava um pouco suja. Era mesmo capaz que, chegando bem perto, sentíssemos o odor de seu suor. No entanto, uma senhora magrinha, a cabeça toda branca, saiu de uma portaria ali próxima, deixou algumas notas no velho prato e fez-lhe uma bonita reverência. Eu não diria que sua interpretação do repertório fosse exatamente bonita, mas uma voz gritou um bravo e se sucederam novos aplausos. Ele tocou para nós por meia hora e partiu. Eram cinco da tarde, mas o dia, a partir daquele instante, finalmente alvoreceu.

***

Dedico esta singela crônica a dois amigos que se foram recentemente: Arleudo, o mais aristocrático dos garçons do Beirute, e Fabinho, que gostava de dançar e sorrir.

Lima Trindade

Nasceu em Brasília (DF), em 1966. É mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia. Publicou o romance As margens do paraíso (2019), a novelaO retrato ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (2014) e o livro de contos Corações blues e serpentinas (2007), entre outros.

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