Uber Comfort, opção sem conversa, ar-condicionado ligado.
Três minutos, Corolla preto, Edmilson.
— Maia?
— Sim. Edmilson?
— Sim. Biblioteca Mário de Andrade?
— Hum-hum.
— Poderia pôr o cinto, querida?
Colocando o mecanismo de proteção, estranhou o vocativo afetuoso, íntimo. O tratamento, invariavelmente, ligava todos os sinais de alerta de seu corpo. Não o conhecia; não era, certamente, proprietária de seu bem-querer. Manteve o silêncio, desgastada. Ainda há pouco, na padaria, o funcionário agradecera o pagamento do café com um indefectível:
— Obrigado, amor!
Qual a razão de as pessoas tratarem as mulheres com tanta proximidade, como se elas fossem conhecidas, merecedoras de carinho não solicitado, disponíveis? Sentia-se sempre invadida, com vontade de responder com raiva:
— Não sou sua querida! Não sou seu amor!
Continha-se. Mas, por dentro, queimava-se toda de ódio. Certa ocasião, comentando o fato com uma amiga, quase não acreditou nas palavras ouvidas:
— Relaxa! O brasileiro é assim mesmo. Nós somos felizes, oferecemos nossa amizade instantaneamente.
Não. Era assédio mesmo. Comportamento culturalmente aceito, mas indevido. Ser mulher não significava deixar brechas abertas. Pelo menos, ela não concordaria jamais com aquele tipo de abordagem.
Na Consolação, a sensação foi confirmada:
— O que uma moça bonita como você, Maia, vai fazer no centro da cidade?
Exerceu o direito digitado no aplicativo. Manteve-se calada, agora ainda mais vigilante. Seu olhar aborrecido, visto pelo retrovisor, mostrou ao motorista o desprazer provocado pela tentativa de diálogo. Felizmente ele percebeu, desistiu. Com as duas mãos no volante, desviou de um buraco.
Chegando ao destino, Maia rapidamente soltou-se e desceu do veículo. Não agradeceu nem se despediu. Restava avaliar o serviço.