Por séculos, todo mundo se acostumou com a versão oficial: Dom Quixote é o cavaleiro sonhador e Sancho Pança, o escudeiro pé no chão. Mas aí aparece uma ata da Santa Inquisição e mostra que houve um pequeno erro de edição. Nada grave: só trocaram os personagens. Quem sai no pangaré Rocinante, com lança em punho, é Sancho Pança. Quem segura o cantil, reclama das bolhas e faz filosofia de boteco é Dom Quixote.
Segundo os especialistas, a confusão vem de Cervantes misturar tinta e vinho quando escrevia. No dia seguinte, relia os rascunhos e não sabia mais quem era quem.
Resultado: durante séculos, achamos que aquele sujeito obeso só queria uma soneca. Mas, na real, era ele quem via castelos em cortiços e princesas em latões de leite.
E lá atrás vem Dom Quixote, magro, resmungão, tentando pôr ordem na maluquice do patrão:
— Senhor, isso não é um exército, é um bando de cabras.
— Cala-te, Quixote, que logo o general delas manda o emissário.
A vida da dupla não é fácil. Enquanto Sancho sonha em libertar donzelas, Quixote discute a conta da estalagem.
— Minha contabilidade não trabalha com fiado, reclama o estalajadeiro.
E o escudeiro franzino, sem forças, paga com discursos sobre o fim da cavalaria, que ninguém ouve.
O episódio mais memorável acontece diante de um tonel de vinho. Sancho jura que é um dragão preso no carvalho, urrando para sair. Mete a lança, a pipa estoura, e o vinho escorre feito sangue de fera. Sancho sai cambaleando, encharcado. Quixote o puxa pelo colarinho e comenta:
— Mestre Sancho, derrotaste o monstro, mas agora a gente vai ter que pagar cada gota.
Com essa confusão de personagens, admitamos: o romance perderia a aura nobre, mas ganharia em gargalhadas. Classe talvez não tivesse. Mas comédia, sobraria.
O verdadeiro Dom Quixote não seria o sonhador romântico, mas o contador pragmático, sempre de olho nas contas. E Sancho não seria o realista com os pés no chão, mas o lunático que vê cruzadas onde outros enxergam apenas poeira no ar.
O problema é a resistência dos leitores em aceitar um visionário com índice de massa corporal alto. Preferem idealistas magros, com cara de mártir, porque um reformador redondo os lembra coronéis de quermesse, políticos oportunistas, televangelistas.
É claro. Podemos simplesmente aceitar a versão de Cervantes sem questionamentos. Mas onde estaria a graça deste texto? Uma crônica de humor precisa de controvérsia, mesmo que inventada.
No fundo, a única coisa que não muda é que tanto Sancho Pança quanto Dom Quixote continuam devendo a conta das estalagens. Ou seja, trocam-se heróis, invertem-se naturezas, mas o fiado continua proibido.