Uma conversa com Guiguigui

Um encontro no sertão mineiro revela um pouco da imensidão da linguagem e da musicalidade no clássico “Grande sertão: veredas”
Ilustração gerada por IA
26/04/2026

Eu estava em Minas Gerais, num povoado chamado Alto da Conceição, no sítio do meu Dido.

Certa manhã, cismei de andar a cavalo. Como eu sou muito ruim nisso, ele me preparou a égua Esperança e disse que tinha esperança de que eu não caísse. Dei uma risada educada, montei no animal e fui indo.

Depois de uns vinte minutos, quando já tinha saído do povoado e passado por uma boiada, um outro homem a cavalo me alcançou (o que não era difícil, por conta de minha lerdeza).

Olhei para o lado e não acreditei em quem era o sujeito. Até gaguejei:

— Gui… gui…gui…

— Guiguiguimarães Rosa, ao seu dispor.

— Puxa, nem acredito que estou ao seu lado.

— A vida é cheia de encruzilhadas. Uma hora isso ia acontecer.

— Sabe que Grande sertão: veredas é um dos meus livros preferidos?

— Não sabia.

— Mas é. E eu só consegui lê-lo na segunda vez que tentei. Na primeira, tinha vinte e poucos anos e, depois de dez páginas, não tinha entendido nada. Deixei o livro de lado. A sorte é que, quando eu tinha uns quarenta anos, uma amiga me disse que eu tinha que chegar até a página cinquenta. Aí iria aprender a língua do livro e tudo ficaria mais fácil.

— Foi o que aconteceu?

— Já na página 30 eu estava entendendo o rosês.

— Fico aliviado.

— Aí, já alfabetizado, adorei o livro. E por vários motivos. Primeiro, a história é muito boa, cheia de ação, tiroteios, mortes, vinganças. As observações e opiniões dos personagens também são muito surpreendentes. E as invenções linguísticas são espetaculares. Não é à toa que há umas trocentas teses acadêmicas sobre isso. Mas o que eu mais gostei mesmo foi a música. O texto tem um ritmo impressionante. Às vezes eu lia um parágrafo, parava um pouco e relia de novo. Só pela música. Podia ser apenas uma enumeração de nomes de bois, mas mesmo isso era belo.

— Ora, ora…

— Ainda bem que só li você depois que já era escritor. Senão podia ter desistido.

— Ah, você é escritor?

— Acho que sou. Ou não sou, mas finjo ser.

— Fingir já é ser um pouco.

Não entendi se a frase era um elogio ou não, então fiquei em silêncio. Como disse Guiguiguimarães Rosa: “O silêncio é a gente mesmo, demais”.

 

José Roberto Torero

Escritor e roteirista, Torero nasceu em Santos (SP), em 1963. É autor de O chalaça (prêmio Jabuti na categoria romance em 1995) e Os vermes, entre outros. Também é autor de livros de não ficção e de literatura infantojuvenil. Ao lado de Paulo Halm, assinou o roteiro do longa-metragem Pequeno dicionário amoroso.

Rascunho