Aprender com Sueli Carneiro e Cidinha da Silva

Leituras e músicas moldam a percepção do racismo desde a infância, revelando uma consciência construída pela escuta, pela arte e pelo encontro com vozes negras
Sueli Carneiro e Cidinha da Silva por Marcelo Frazão
24/04/2026

Ninguém precisou me ensinar o que é racismo. Aprendi na infância, na família, entre os vizinhos. Via os adultos (brancos) mudarem o tom de voz ao falar das pessoas “diferentes”, mesmo que ao elogiar — “Acho ela tão charmosa!”. Muito pequena, eu adorava duas crianças “diferentes” — as irmãs, de oito e nove anos, assistiam ao seriado Dallas, e desenhavam as roupas de Pamela, Sue Ellen e JR. O que poderia ser mais new wave, em 1980, que imitar os ricaços de Dallas? Minha admiração por essas meninas é a raiz mais ingênua de minha indignação contra o racismo.

Depois, bem, convivi com o que todos convivem, ao crescer na classe média branca: piadas racistas — e todos riam —, vizinhos desprezados, desrespeito àqueles “com cara de pobre”, etc. E o colorismo entre os brancos: vergonha de ter parentes de pele parda, idealização dos loiros “de verdade”, a humildade fingida das branquíssimas que lamentavam não conseguir “pegar uma cor”.

Desde a adolescência, eu tinha o mínimo bom senso de perceber que isso era errado e constrangedor. Tinha vergonha, inclusive, pelo aspecto estético — além de cruel, esse mundo colonizado me parecia de péssimo gosto. Gabar-se de ser “europeu”? Mas que palhaçada.

Através da música, fui aprendendo que havia um pensamento articulado sobre nossa profunda fissura social. Na coleção de LPs História da música popular brasileira, lançada pela Abril Cultural, conheci as canções de Wilson Batista, e muitos sambas gravados por Aracy de Almeida e Orlando Silva. Os discos estavam em casa (meu pai era colecionador de fascículos) e comecei a ouvir.

Cheguei em São Paulo nos anos 1990. Uma rádio FM era dedicada ao rap. Lembro do impacto de Fim de semana no parque, dos Racionais, em 1993, na casinha de fundos em que morei, frente ao cemitério da rua Cardeal Arcoverde. A letra, a batida, a poesia — e o retrato daquela cidade impiedosa. Na imprensa, lia Marilene Felinto. Na literatura, descobri Lima Barreto.

Conforme apareciam as edições brasileiras de literatura africana, fui conhecendo Chinua Achebe, Léonora Miano, Scholastique Mukasonga. E o repertório se ampliava com bell hooks, Edimilson de Almeida Pereira, Astolfo Marques… Tentar uma lista completa de leituras seria, provavelmente, pouco útil. Nesse campo, não sou ninguém. Só uma professora não sindicalizada, que nunca militou, e apenas tenta ser decente e melhorar o conteúdo de suas aulas.

Do meu ponto de vista, restrito e passivo, fui sensibilizada por uma luta que a classe média branca conhece pouco. Para que essas músicas e livros fossem lançados e relançados, valorizados e divulgados, muita gente lutou. A batalha pela expressão avançou junto à demanda por direitos: educação superior, participação política, boa remuneração, respeito.

Duas novas leituras me ajudaram a compreender um pouco mais: Continuo preta – A vida de Sueli Carneiro, por Bianca Santana, e Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior, de Cidinha da Silva. O livro de Cidinha, especialmente. Ao mesmo tempo profundo e límpido: são lições de vida que ela aprendeu com Sueli Carneiro, nos anos em que trabalhou no instituto Geledés, e depois.

O livro mistura crônicas e ensinamentos, numa filosofia singular, amadurecida pela vivência: “Nenhuma guerra deve endurecer nosso coração”.

Você já leu? Se ainda não, vá e leia.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

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