O sol na cabeça

Uma memória retorna como um clarão: um gesto intempestivo, um coração de chocolate e a imagem de quem ousa carregar o sol aceso no peito
Ilustração: Eduardo Mussi
17/04/2026

“Rogério querido, me desculpe, mas vou atrasar o envio da minha crônica” foi o que pensei escrever ao me dar conta de que os dias haviam transcorrido — na verdade, escorrido —, sem que eu conseguisse me concentrar para escrever a crônica a ser publicada neste espaço hoje, 17 de abril. Nervosa, já com palpitações, agarrei a terceira xícara de café. Banhada de cafeína até a raiz dos cabelos, me recompus. Mirei o cursor piscando, a longa página em branco à frente, como quem encara um antagonista.

Numa semana em que: (1) o louco-criminoso, em mais uma de suas bravatas, declarou que acabaria com uma civilização; (2) vimos a face oculta da lua; e (3) lancei meu primeiro romance em São Paulo, seria possível escrever sobre outros assuntos?

“Querido Rogério, mil desculpas, mas gostaria de verificar com você a possibilidade de adiar a publicação da crônica do dia 17/4”. Cogitei essa alternativa. E foi aí que me veio a imagem da qual partiria para escrever este texto. A imagem de um coração maciço de chocolate do tamanho da palma da minha mão.

Perto do cursinho pré-vestibular, em frente ao ponto de ônibus na Avenida Nossa Senhora de Copacabana onde ela saltava, quase na esquina da Bolívar, havia uma Kopenhagen. Um dia, bem cedo, a loja ainda fechada, avistou os corações maciços embalados em papel vermelho brilhante expostos na vitrine. Alguns formavam um enorme painel reluzente e pulsante, outros compunham um móbile que descia do teto e dava a impressão de que os corações flutuavam sem nenhum tipo de suporte. No intervalo das aulas, atravessou a rua, entrou na loja e carregou um com ela, embalado para presente. No final da manhã, andou até a Barata Ribeiro e pegou um ônibus que a levaria para um endereço que não era o dela. Tocou a campainha, surpreendeu a senhora que abriu a porta e se preparava para servir o almoço e, ainda mais, o rapaz que assistia à tevê deitado no sofá depois da faculdade. Envergonhada, já meio arrependida do arroubo que a levara até ali, demorou a conseguir explicar a razão daquela visita inesperada e, sentindo o rosto queimar, foi capaz de entregar o coração com um pequeno bilhete em que escrevera uma frase que agora não sou capaz de lembrar, mas posso intuir.

O rapaz recebeu aquele coração dado assim de bandeja entre incrédulo e incomodado. Agradeceu constrangido, como se tivesse recebido um par de meias de tamanho menor que o dele, de uma tia distante, no dia do aniversário. Ela inventou uma desculpa qualquer para sumir sem aceitar o convite para almoçar, feito pela senhora, que colocava a travessa de feijão na mesa. Zarpou de lá, em penitência por ser uma moça tão intempestiva.

Fiquei me perguntando por que essa imagem do coração maciço embalado em papel vermelho brilhante reapareceu depois de tanto tempo. Alguém me contou essa história que me impressionou muitíssimo décadas atrás, lembro de ter pensado obsessivamente sobre ela e depois apaguei da memória. E ao pensar nela de novo, uma vida inteira depois, ouvi a voz doce da Nara Vidal, que outro dia falava da sensação de termos engolido o sol quando estamos felizes. Engolirmos o sol e trazermos o sol no peito, o sorriso aberto iluminando o rosto. E a essa memória se somou um trecho da crônica do Julián Fuks, no sábado passado, falando da lua, “E de novo, como há muito não acontecia, vimos o invisível, pousamos os olhos sobre o desconhecido”.

Então, escrevi mentalmente o desfecho daquela história cujo fim ignoro porque nunca mais esbarrei com seus personagens. A jovem que entrega o coração maciço ao rapaz é alguém que engoliu o sol, alguém que traz um sol brilhando no peito, ardendo, estampando um sorriso brutal no rosto, alguém que busca o invisível.

Clarisse Escorel

É escritora, advogada e especialista em Propriedade Intelectual e Direitos Autorais. Estreou na literatura em 2023 com o livro de crônicas Depois da chuva (Ouro sobre Azul). Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Rascunho