Tebaida

Solidão profunda, desértica, de alguém que resta numa cidade fantasma, perdendo o préstimo da palavra, ganhando ares de invisível
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on telegram

(21/11/20)

Lembro que havia um garoto, nos tempos do colégio, que se gabava de ler dicionários página por página. Tinha fama de maluco, mas não seria o único. Alguém mais já deve ter experimentado, se não uma leitura página por página, uma passegiata, um desvio da rota do estudo, um recuo ao nível da simples curiosidade em torno das palavras que avizinham a procurada.

O menino do colégio, que era de fato meio doido, a leitura dos dicionários sendo apenas uma entre muitas de suas esquisitices, eu me lembrei dele outro dia quando buscava uma palavra e topei com outra no meio do caminho. Tebaida. Fazia tanto tempo que não via essa palavra que foi como se ela soasse nova para mim, tão clara em sua abertura vocálica como o Saara ao meio-dia, tão ancestralmente feminina.

Solidão profunda, desértica, de alguém que resta numa cidade fantasma, perdendo o préstimo da palavra, ganhando ares de invisível. Podia ser uma mulher, Tebaida, imiscuída numa multidão sem se dar conta de outros corações próximos e igualmente antigos. Tebaida, uma mulher de olhos cegos, mais que sozinha, sozinha como uma cidade extinta, lavada pelo sol, distante no tempo, quase o nome de uma lenda, que só se faz visível para quem vive no deserto ou alguma vez já lá esteve.

Há o tear ao lado dela, o teatro, a tecedura, a tecla, a tectônica, mas tebaida está só no meio de todas essas palavras producentes, não há o que a distraia ou a socorra do seu ermo, podem levá-la para uma volta ao mundo e ela levará aonde for sua solitude. Quem a encontra sem procurar por ela, assim, no meio do caminho, talvez se esqueça de cumprir a outra metade da jornada e por aí fique, na vasteza clara dessa palavra, saboreando seu sal. Tebaida. Face nua da terra desabrigada. Qual era a palavra que eu buscava antes dessa paragem, eu já não sei.

Mariana Ianelli

Nasceu em São Paulo em 1979. Formada em jornalismo, mestre em literatura e crítica literária, estreou na poesia em 1999 com Trajetória de antes. Em 2013, estreou na crônica com Breves anotações sobre um tigre. É também autora de dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no Rascunho. Escreve quinzenalmente, aos sábados, na revista digital de crônicas Rubem.

Publicidade

Leia também

Rascunho

Curitiba - PR

Entre os selecionados, há sete brasileiros: Julián Fuks, Maria Valéria Rezende, Julia de Souza, Veronica Stigger, Itamar Vieira Junior, Tiago D. Oliveira e José Rezende Jr.
Gisele Eberspächer

Curitiba - PR

Autora do primeiro livro escrito em árabe a vencer o The International Booker Prize, Jokha Alharthi acredita na potência transformadora da boa literatura
Rascunho

Curitiba - PR

Em texto, senador chama de “nefasta” a cobrança de tributação de 12% sobre os livros proposta pelo governo federal na reforma tributária
Rascunho

Curitiba - PR

Caê Guimarães e Tônio Caetano, ganhadores nas categorias Romance e Conto,
participam de live nesta terça-feira (24), com transmissão pelo YouTube e Facebook