Sem pisar na avenida

Um país que produziu Paulinho da Viola, Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Dona Ivone, Cartola, Pixinguinha e Noel Rosa não pode ser de todo ruim
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18/02/2021

Confesso que tenho em mim (todos os sonhos do mundo e) uma enorme dicotomia entre odiar e amar o carnaval.

O ódio está depositado em todos os seus preconceitos: gordofobia, machismo, racismo etc. A commedia dell’arte é considerada a origem do carnaval contemporâneo e tinha como grande mérito “revolucionário” serem peças faladas em italiano e não em latim. Do século 16 para cá, muita coisa passou nesse rio, incluindo escravidão, capoeira, sincretismos e outros abrasileiramentos. Segundo Cecília Meireles, no livro Batuque, samba e macumba: estudos de gestos e rituais 1926-1934, o batuque vem do ritual de adestramento masculino para as guerras. Ou seja, muita coisa ruim misturada. Mais recentemente, o carnaval desaguou em globelezas e outras misoginias. Fica difícil defender.

O amor, por sua vez, está inteiramente derretido na música. A propaganda que a Brahma fez com a Alcione arrepia até os mais insensíveis. Se você não se emociona ouvindo “Quando eu não puder/ Pisar mais na avenida/ Quando as minhas pernas/ Não puderem aguentar/ Levar meu corpo/ Junto com meu samba/ O meu anel de bamba/ Entrego a quem mereça usar” naquela voz marrom divina no sambódromo vazio, amigo, você está morto por dentro. Não importa se você, como eu, prefere a avenida Paulista em um dia útil à Sapucaí no feriado. Só a música e a poesia nos salvam. Um país que produziu Paulinho da Viola, Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Gilberto Gil, Beth Carvalho, Cartola, Pixinguinha, Adoniran Barbosa e Noel Rosa não pode ser de todo ruim.

Quando eu ainda morava no Rio de Janeiro, 2 blocos faziam concentração na porta do meu prédio: o Imprensa que eu gamo, e o Quem num guenta bebe água. Os nomes dos blocos cariocas são toda uma literatura à parte. O que eu mais gosto, disparado, é o Trema na lingüiça. Na época, com filho pequeno, obviamente passei pelo ritual de iniciação à maternidade que envolve fantasia de carnaval e bloquinho com criança. Não tem treinamento dos mariners que te prepare para uma coisa dessas. Primeiro, começa a concentração. A gente morava em um apartamento de frente. As paredes tremem e o seu cérebro entra em convulsão. A cachorra se esconde embaixo do sofá e você vai olhar se tem espaço para mais um. A impressão que dá é que alguém está fazendo uma obra dentro do seu pulmão. Nesse momento fica fácil de entender como as pessoas surdas conseguem dançar. A música, especialmente a percussão, atinge o seu corpo como um soco.

O melhor a fazer é desistir, se entregar e descer para o bloco.

É mais ou menos assim. Você pega água, protetor solar, roupa leve para quando seu filho se irritar com a fantasia, toalhinhas umedecidas, dinheiro trocado, cópia da carteira de identidade e barrinhas de cereal. Coloca o dinheiro, a identidade e o celular no bolso da frente para não ser roubada, o resto numa bolsinha pequena com zíper, pega a mão de filho e vai. Assim que você chega na rua, a criança quer ir no banheiro. Você sobe e repete. Desce. Entra no bloquinho. Querem te vender de absolutamente tudo: abadás, cerveja, refrigerante, espetinho, caipirinha de origem duvidosa, milho verde, confete, serpentina, trompete, apito, vuvuzela, um imóvel e três elefantes amestrados.

Chega uma hora que a boa educação já foi esquecida e você só passa de cara amarrada segurando firme a mão da criança na multidão. A criança pede colo. Você coloca a bolsa, contendo todo o lixo inútil que você levou, transpassada e, quase morrendo enforcada, pega a criança no colo. O chapéu de cowboy entra no seu olho e você leva uns bons 5 minutos convencendo seu filho de que ele não será menos cowboy sem o chapéu. Você começa a se dirigir de volta para casa. Nesse momento então aprende que não é porque está carregando a criança no colo que ela está cansada. Não… Você está carregando a criança no colo porque é trouxa. Volta para o bloquinho, que não anda, ô miséria.

Agora você já desistiu de se incomodar com passadas de mão, bêbados inconvenientes às 3 da tarde e nem nota mais a fauna formada ao seu redor. Tudo o que você quer é banho e silêncio. O tempo demora a passar e você se pergunta como será a festa junina no dia seguinte. Quando, finalmente, a criança se dá por vencida e você consegue voltar, percebe que seus pés estão sangrando e que você passou protetor solar na criança mas esqueceu de passar em você. Você aqui, claro, é genérico. Eu não, eu jamais faria uma coisa dessas. De volta em casa, você dá banho na criança sonâmbula e depois quase se afoga no chuveiro. Você se enterra no sofá e torce para não ter mais nenhum bloquinho na sua porta. Você lembra então que mora em Laranjeiras e que será esse inferno por mais duas semanas. Talvez, só talvez, tenha sido ali que eu decidi me mudar para São Paulo.

Existe uma remota possibilidade de eu amar samba e odiar carnaval. Remota. Ínfima.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

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