Quando eu cancelei Cazuza

Apontar o dedo virou uma espécie de moda nas redes sociais, uma tentação que se faz sem pensar muito
Ilustração: Thiago Thomé Marques
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26/09/2021

No grande balcão que se tornou o mundo pós-queda-do-muro-de-Berlim, um item tem andado cada vez mais raro em suas prateleiras: a dúvida. Parece que a consciência de nossa própria imperfeição individual foi abolida da cartilha de atuação nas redes sociais, portais de notícias e jornais de televisão. Assim como a fronteira entre o senso comum exposto em postagens do Facebook, Instagram e Twitter e as matérias da mídia eletrônica vai paulatinamente se esgarçando. É flagrante a ascensão de um novo e cruel puritanismo em nossas vidas públicas. Armados de boas intenções, seus seguidores já começaram a jogar as bruxas, que antes desfilavam com verrugas no nariz, na fogueira da cultura de cancelamento. Suas certezas são tão sólidas que não se admitem punições brandas nem medianas. O conto da aia é aqui. E é agora.

Johnny Depp que o diga, depois da Warner Bross afastá-lo do elenco de Animais fantásticos em razão de sua derrota judicial contra um jornal britânico que o chamara de “espancador de esposa”. Já Scarlett Johansson perdeu o posto de embaixadora informal da causa palestina por, desastrosamente, participar de uma campanha publicitária para um refrigerante com fábrica na Cisjordânia, detalhe que ela desconhecia, mesmo trazendo consigo seu histórico de militância a favor dos palestinos. A literatura também foi contaminada. O que dizer da decisão da WW Norton de suspender a publicação da biografia de Philip Roth escrita por Blake Bailey, acusado de comportamento inadequado e agressões sexuais por diversas mulheres, e a da Hachette, que desistiu da autobiografia de Woody Allen por pressão dos seus funcionários, embora os tribunais americanos houvessem inocentado o cineasta das acusações de abuso sexual? No Brasil, houve quem defendesse banir toda a obra de Monteiro Lobato das escolas pelo conteúdo racista presente em Caçadas de Pedrinho. São exemplos que, em diferentes graus de medida, se multiplicam mundo afora.

Pausa. Importante registrar que não estou aqui fazendo defesa dos possíveis crimes e falhas de caráter de Depp, Johansson, Bailey, Allen ou Lobato. Sou inteiramente a favor da responsabilização e punição de toda ação que traga dano a outro. No entanto, julgo haver instituições legais mais bem instrumentalizadas (e, por consequência, mais justas) para lidar com essas questões do que a apressada cultura do cancelamento. E penso que a censura e o silenciamento absoluto reproduz uma lógica de violência que apaga não só o que é ruim e execrável, mas também toda a contribuição positiva que pessoas imperfeitas trouxeram para nossas vidas. Exemplos? Olhemos um pouco para o passado. Aristóteles era misógino, Lima Barreto e Graciliano Ramos homofóbicos, Nina Simone era bipolar e atirou em duas pessoas, sendo uma delas um garoto que teria tirado sua concentração com uma risada, Thomas Edison era caloteiro e eletrocutou animais com o objetivo único de difamar um oponente, o cientista Nikolas Tesla, Dostoiévski viciado em jogo e Gandhi era abusivo com sua esposa. Nem por isso abdicaremos dos sistemas científicos e filosóficos gregos, não usaremos mais luz elétrica, ignoraremos a força da proposição da não-violência, não ouviremos mais o piano e reconheceremos a grandeza da interpretação vocal de uma cantora singular ou nos recusaremos a ler a prosa e a poesia desses ficcionistas. A conduta moral irrepreensível não faz uma pessoa boa ou má filósofa, cientista, diplomata ou artista. Tampouco, seu contrário.

Apontar o dedo virou uma espécie de moda, uma tentação que se faz sem pensar muito. Por outro lado, sinto que esses macarthistas (ou, conforme a preferência, estalinistas) contemporâneos examinam muito pouco a si mesmos. Algo parecido com o que eu fazia quando jovem e teimava em não ouvir as músicas de Cazuza. Eu repetia para os meus amigos que o Barão ficara bem melhor sem ele, que não passava de um burguesinho mimado, superficial e afetado. Pura idiotice. Eu o comparava ao Renato Russo e, para valorizar a supremacia da música de Brasília (e a mim, evidentemente), dava costas para seu lirismo, deboche e rebeldia. O motivo? Simples inveja e preconceito de classe. Até que ele lançou Ideologia e eu, envergonhado, decidi deixar de tamanha babaquice.

No atual cenário, não parece casual que os filmes de super-heróis se multipliquem e alcancem gigantesca popularidade, considerando que uma representativa parte de seus espectadores se identifica com o latente maniqueísmo da maioria dos roteiros. Neles, os bons e maus já estão previamente definidos. Não se trata apenas do avanço da tecnologia e a capacidade de transposição de um universo mágico para as telas. Há sinais de santidade nos tais super. Se essa nova realidade é por um lado sintomática, curiosamente parece seguir na contramão do movimento que representou a renovação dos quadrinhos a partir da publicação de O cavaleiro das trevas e Watchmen, onde se buscava adensar personagens, trabalhar contradições e conflitos e explorar contextos de atuação mais complexos.

***

Ah, antes que eu me esqueça, soube que o avião de Hernán aterrissou no aeroporto de Salvador na manhã desse sábado. É bem provável que, neste momento, ele e Emily caminhem nas areias de uma praia pouco frequentada, as mãos entrelaçadas, o som do mar ao fundo, sussurrando um ao outro versos de autores hoje esquecidos por suas imperfeições.

Lima Trindade

Nasceu em Brasília (DF), em 1966. É mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia. Publicou o romance As margens do paraíso (2019), a novelaO retrato ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (2014) e o livro de contos Corações blues e serpentinas (2007), entre outros.

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