O tempo da literatura

Seja por questões financeiras, operacionais ou por respeito ao processo artístico, é uma bênção que o tempo da literatura seja distinto
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on telegram
06/01/2021

Quando comecei a publicar livros, descobri um novo relógio. Eu vinha do jornalismo e da publicidade, onde os textos eram para ontem, mensagens tinham respostas imediatas, emails eram enviados e respondidos nos finais de semana. O manuscrito da minha primeira publicação, A teta racional, demorou quatro meses para ser lido. Outros seis para ser publicado. Talvez nem seja tanto. Sei de originais que demoraram mais de um ano para ser lidos. Livros que demoraram mais de cinco para ser publicados. Emails de recusa que chegaram ainda depois disso.

Morosidades reprováveis à parte, o tempo da literatura é outro. No momento em que escrevo esse texto, estou fechando um ciclo. Lancei um romance, trabalhei durante meses no lançamento e divulgação e agora respiro e me preparo para escrever um novo livro. Quando devo entregá-lo?, perguntei ao meu editor, pensando que, quanto antes, melhor. Ele me disse para deixar de ser prolífica. A máquina do mercado editorial está preparada para lançar um livro (de cada escritor) a cada dois anos. Um ano para preparar, lançar e divulgar a obra. Outro para concorrer a prêmios, quem sabe ampliar as vendas. Escritor que aparece com um manuscrito a cada ano é problema. Eu disse para ele que estava aliviada, meu próximo romance envolve pesquisa. Ele falou para eu ficar tranquila: se entregar o romance dentro de três anos, também está ótimo.

Não sei de outro trabalho que conceda prazos tão generosos. Talvez seja diferente com best-sellers – é justo que o sucesso tenha seu ônus –, mas para mediano-sellers como eu, o ponteiro não faz pressão. E que sorte que não faz. Seja por questões financeiras, operacionais ou por respeito ao processo artístico, é uma bênção que o tempo da literatura seja distinto. Adoro pensar que, partir de agora, posso ficar meses só lendo. Ou então só observando as minhas unhas crescerem. E se eu passar de três anos nesse éter, sem drama. Vou mandar um email avisando. E eles vão demorar dias ou semanas para responder.

Giovana Madalosso

Nasceu em Curitiba (PR), em 1975. É autora de A teta racional (livro de contos finalista do Prêmio Literário Biblioteca Nacional), e dos romances Tudo pode ser roubado (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura) e Suíte Tóquio.

Publicidade

Leia também

Rascunho

Curitiba - PR

Em “Solidão e companhia”, organizado pela jornalista Silvana Paternostro, a vida do autor de “Cem anos de solidão” é contada por pessoas próximas
Rascunho

Curitiba - PR

“O som do rugido da onça” narra trajetória de crianças indígenas capturadas no Brasil no século19 pelos pesquisadores alemães Von Spix e Von Martius
Rascunho

Curitiba - PR

Valter Hugo Mãe, José Eduardo Agualusa, Mia Couto, José Luís Peixoto e Gonçalo Tavares abrem a temporada 2021 do evento, idealizado e conduzido por Afonso Borges
Rascunho

Curitiba - PR

Nos quase 60 textos de “Coragem de viver”, escritor gaúcho homenageia sua mãe, Maria Carpi, que completou 30 anos de atividade poética em 2020