O machista sem máscara

O típico sujeito que acha sua vontade mais importante do que a saúde do outro ou o bem-estar coletivo
Ilustração: Oliver Quinto
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28/04/2021

Há tempos venho observando as pessoas sem máscara na rua. A maioria são homens. Não qualquer homem mas um tipo bastante particular, da espécie Machista sem máscara. Aquele que acha sua vontade mais importante do que a saúde do outro ou o bem-estar coletivo.

Esse tipo não nasceu na pandemia. Nós, mulheres, já os conhecemos de outros carnavais, como as noites dos anos oitenta, quando eles não queriam usar a máscara de vênus. Se hoje as desculpas vão do “é ruim caminhar de máscara” a “não tem problema, estamos ao ar livre”, antes iam de “não sinto prazer com essa borracha” a “não vai dar nada, só vou pôr a cabecinha”. Muitas vezes dava: Aids, DST ou gravidez, heranças que as mulheres carregariam sozinhas, como agora carregam sozinhas o vírus que poderá levá-las a um leito de UTI ou, ainda pior, à falta dele.

Tão ruim quanto o desfecho é a farsa que se esconde nessas histórias. O Machista sem máscara posa de corajoso na sua indiferença aos vírus mas no fundo é o contrário disso: um chorão que foi mimado pela sociedade, que muitas vezes não lavava nem seu copo de Nescau e agora esconde seus caprichos por trás de uma postura cheia de bíceps, irritado em perder o conforto conquistado a moles penas em séculos de dominação patriarcal.

Esses dias estava correndo em uma rua perto da minha casa. O farol fechou e fiquei na calçada, pulando no mesmo lugar, mantendo o ritmo. Um homem parou bem ao meu lado, também esperando o verde para avançar, só que sem máscara. Não costumo falar nada mas nesse dia a serotonina circulava pelo meu sangue como uma vodca. Fitando-o com o canto de olho, falei: põe a máscara, amigo. Ele virou para mim e, subitamente inflado, disse: o que foi, vagabunda? Dei alguns passos para trás. Por cima da bermuda de nylon, ele pegou no pau. Começou a sacudi-lo e a repetir: vem pôr a máscara aqui, piranha. Nesse momento eu já estava correndo para longe, olhando ao meu redor, em busca de uma pessoa qualquer ou da polícia na cidade esvaziada pela pandemia.

Não encontrei ninguém e fui me acalmando à medida que me afastava, com um queixo que só não caiu no chão porque foi segurado pela minha máscara. Não fiquei surpresa por ele ter achado ruim o pedido, qualquer homem dessa espécie acharia. O que me deixou petrificada foi ver a falta de constrangimento em reagir de forma tão bestial.

Há machistas que usam máscara no rosto e nos gestos e também são perniciosos praticando seus abusos dissimulados. E há machistas como esse que encontrei, burro ou perverso a ponto de nem esconder a caricatura que lhe serve de rosto. Uma pena eu não ter achado a polícia. Pela minha experiência, que não se restringe a essa situação, o machista e o cetro ilusório que carrega entre as pernas encolhem imediatamente quando confrontados com alguém privilegiado pela mesma estrutura de poder.

Giovana Madalosso

Nasceu em Curitiba (PR), em 1975. É autora de A teta racional (livro de contos finalista do Prêmio Literário Biblioteca Nacional), e dos romances Tudo pode ser roubado (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura) e Suíte Tóquio.

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