Nem o outro

É no tédio, como este provocado pela pandemia, que descobrimos quem somos e com quantas camadas de costura sobrevivemos
Detalhe de obra do holandês Piet Mondrian
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15/07/2021

Nós somos costuras de nós mesmos. Para todos, mas especialmente para alguns machos desconstruídos, o principal pânico é que as camadas de polimento, costuradas à mão e com sangue, desapareçam na velhice, junto com a sanidade.

A lucidez um dia irá embora. Será que, junto com ela, irá também a civilidade aprendida com tanto esforço?

Como diz um amigo querido, os “sistemas operacionais instalados nos primeiros 10-15 anos de vida alicerçam todo o resto”. No fundo, nós somos todos pré-adolescentes. Alguma coisa desses anos de formação, alguma hora, se revela. Um dia aqueles bytes gravados na nossa bios voltam à tona. Um tipo de bug do milênio, que se torna uma ameaça muito tempo depois de sua concepção.

Ele chama isso de “A carga das segundas chances”. Os melhores de nós, aqueles que aprendem e sobrevivem, são desdobramentos futuros de nós mesmos.

No final das contas, não há passado e nem futuro. Há apenas o que se materializa no presente. Esse conceito não é meu, é do Henri Bergson (1859-1941).

Coloquei as datas de nascimento e morte de propósito, para demonstrar o zeitgeist daqueles anos.

Essa virada de século deve ter sido uma época incrível para as Humanas. Imagine estar vivo ao mesmo tempo que Graciliano Ramos (1892-1953), James Joyce (1882-1941), Piet Mondrian (1872-1944). Ou, um tiquinho de nada antes, Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901).

Para que essa época fosse boa, claro, você precisava ser homem, hetero, branco, cis e de preferência europeu e rico. Ou seja, você precisava ser alguém para quem não houvesse época ruim. Detalhes.

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) é o autor de um dos meus versos favoritos. Um dos poucos que sei de cor:

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

O Freud também fala mais ou menos disso. Ele diz que nós nos definimos na interface com o Outro. Mário de Sá-Carneiro, na minha opinião, disse melhor.

Nesses momentos de tédio profundo patrocinado pela Covid, lembre-se que é o tédio, justamente, que fornece a sustentação para essa ponte com o Outro.

É no tédio que descobrimos quem somos e com quantas camadas de costura sobrevivemos. No tédio não há distração, não há desculpa para a ausência de pensamento.

Somos obrigados, forçados, a conviver com aquilo que somos de mais cru. É no tédio que a fantasia fica no armário e o espelho revela toda sua crueldade.

E é por isso que muita gente está enlouquecendo na pandemia. O tédio é pilar mas é também implacável. Não perdoa.

Temos que conviver com nós mesmos, não há alternativa.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

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